Como os supermercados estão explorando o pilar ambiental do ESG?

Projetos que levam em conta questões de energia limpa e reciclagem crescem no setor de supermercados e podem gerar redução de custos e melhora da competitividade. Veja como iniciar iniciativas como essas

Um movimento de mais cuidado com o meio ambiente vem crescendo no varejo brasileiro. As empresas entenderam que, além de contribuir para um mundo melhor, as práticas ligadas, por exemplo, à energia limpa e à reciclagem são essenciais para a competitividade. De maneira simples, a sustentabilidade é uma abordagem de negócios para criar valor a longo prazo, levando em consideração como a organização opera nos pilares definidos pelo ESG, sigla em inglês para environmental, social and governance (ambiental, social e governança, em português). “Todo empresário deve ter em mente que o papel de um negócio não se limita apenas à geração de lucro, vai muito além. Isso nada mais é do que produzir lucro de forma justa, ética e respeitável com todos os envolvidos: cliente, fornecedor, empresário, funcionários e sociedade”, explica Luciana Lima, sócia da Science Consulting e professora do Insper nas disciplinas de estratégia de negócios, pessoas e liderança.

O que tem sido visto no segmento nesse sentido é o avanço de projetos de economia circular, com a logística reversa, e a implementação de energia limpa. Segundo uma pesquisa da Greener, que trabalha com informações para guiar a transição energética no Brasil, dentre os consumidores comerciais, o varejo, com destaque para os supermercados, é o setor que mais instala sistemas solares, com 38% das aparelhagens em atividade no país. O levantamento mostra que mais de 74% das instalações comerciais foram direcionadas para essa categoria.

Além da economia de custos – a conta de energia elétrica é um dos maiores gastos de estabelecimentos comerciais –, a forma de operar representa muito para os consumidores na hora de escolher um local para comprar. “As pessoas, hoje, buscam consumir de empresas que têm responsabilidade ambiental e que consigam atenuar os impactos do consumo exacerbado no planeta”, diz Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt, empresa de inteligência em redes de negócios. Mas ela reforça que é preciso que o tema se torne, de fato, um direcionador dos negócios, sendo abordado em uma atuação genuína e não apenas como uma ação de marketing no chamado greenwashing, ou seja, fazer 10% e comunicar 90%.

Da intenção à prática

O primeiro passo para implementar qualquer ação de energia limpa é entender o estado atual do consumo energético: valor, tarifas de energia, modalidades de contratação e distribuição do consumo entre as unidades, como explica Marilia Damião, gerente de marketing & inovação da GreenYellow, que atua com soluções de energia. “Apenas depois de entender o cenário, é possível traçar um plano, seja para reduzir um consumo exagerado ou investir em energia renovável”, diz. Ela recomenda iniciar pela otimização do consumo antes de partir para a energia renovável, garantindo que a energia gerada irá abastecer um consumo eficiente, sem excessos. Mas é preciso planejamento e um trabalho colaborativo. Isso porque, há dois desafios nesse processo: investimento inicial e expertise no tema. Segundo Marília, o investimento em energia renovável ou grandes projetos de eficiência energética pode chegar na casa dos milhões, por isso, para os varejistas que possuem margens apertadas, isto pode ser um desafio. “Uma forma de reverter isso é contar com empresas que fazem o investimento inicial pelo cliente e implementação do projeto, cobrando depois uma mensalidade do varejista pela solução implantada. Isso possibilita que as empresas iniciem sua transição energética sem impactar o fluxo de caixa”, afirma.

O segundo desafio é a especificidade do setor energético. Há diversas regulações e marcos legais que devem ser acompanhados e podem impactar o resultado do projeto caso não sejam considerados na etapa de estruturação. “Uma cotação para um projeto de energia solar, por exemplo, exige um conhecimento de modelagem técnico-financeira”, diz Marília.

O GPA, que reúne marcas como Compre Bem, Extra e Pão de Açúcar, foi a primeira empresa supermercadista a pensar em fontes renováveis de energia. O trabalho foi iniciado em 2005 e a meta é chegar a 95% das lojas com energia limpa até 2024. Para isso, a rede implementou uma série de ações para reduzir o consumo de energia e, assim, ir migrando para esse formato, no qual é possível adquirir energia de fontes como eólica, solar, biomassa, cogeração qualificada e pequenas centrais hidrelétricas. Entre as ações estão a troca de ilhas de produtos refrigerados para diminuir perdas térmicas, automação do sistema de ar condicionado, troca de iluminação por leds ou outras lâmpadas mais eficientes, segmentação de circuitos e redução de operação de compressores e do consumo de energia com a detecção e a correção de vazamentos. Além disso, segundo informações da empresa, o GPA instalou usinas solares em algumas unidades do Minuto Pão de Açúcar e adotou, em julho de 2021, os veículos elétricos para entregas de pedidos realizados via e-commerce.

Tudo começa com o mapeamento

Mas o GPA não é a única rede nesse movimento. O Assaí Atacadista, que hoje tem aproximadamente 90% da energia consumida na empresa oriunda de fontes renováveis, iniciou o processo em 2019 com o levantamento de quais lojas poderiam explorar o pilar e quando isso aconteceria. “É preciso estar atento às regulamentações, por exemplo. Existe uma que diz que você só pode migrar quando acabar seu contrato de energia com a distribuidora local”, diz Lucas Attademo, gerente de contas públicas e galerias do Assaí. Segundo ele, com o mapeamento, a empresa começou a estruturar todo o processo, que foi feito internamente num trabalho de colaboração entre as áreas. “Nossa área deu todo o apoio ao processo para ter sinergia, mas há muitas pessoas envolvidas, como o time de manutenção, além de empreiteiros e profissionais das áreas de finanças e comunicação”, afirma.

O Assaí também conta com sete usinas solares em operação nas lojas nos estados PA, RJ, GO, PR, MT e GO. Todos os painéis fotovoltaicos foram instalados na cobertura dos estacionamentos das lojas e geram energia que abastece parte da operação. Ao longo de 2021, as usinas geraram cerca de 4 GWh de energia, evitando a emissão aproximada de mais de 200 toneladas de CO2 durante o período. Além da migração para o mercado livre de energia, a empresa adota boas práticas ligadas à ecoeficiência na construção e operação de suas lojas, e promove a conscientização ambiental do público interno. Há, por exemplo, balcões resfriados, sistemas mais eficientes de ar condicionado e uso de lâmpadas LEDs. Já as ações de conscientização contam com palestras e campanhas mensais, e os gerentes ganham uma bonificação pelo resultado de cada loja.

Por dentro da economia circular

Outra forma inteligente de trabalhar o pilar ambiental é por meio da economia circular, conceito que se contrapõe ao da economia linear em que um recurso é extraído, utilizado e descartado. “Na economia circular, o ponto principal é o melhor aproveitamento dos recursos naturais, garantindo uma vida mais longa aos produtos e insumos, seja pela transformação, seja pela reciclagem ou reutilização, mantendo seu valor na cadeia produtiva”, explica Lyana Bittencourt.

Trata-se de uma nova abordagem que não concorre com o negócio principal, mas a complementa. Segundo Lyana, a primeira etapa para iniciar um processo de logística reversa, um dos pilares da economia circular, é olhar para a cadeia e repensar em quais pontos é possível otimizar a utilização de recursos ou diminuir o descarte de materiais e produtos que poderiam ter uma vida útil maior. “Para isso, é preciso visão sistêmica de todo o processo para identificar esses pontos de oportunidade, o que inclui olhar para a origem dos produtos, fornecedores, consumidores e demais stakeholders”, explica.

Segundo Rodrigo Oliveira, presidente da Green Mining, especializada em logística reversa inteligente, não é preciso começar com um grande projeto, que envolva todas as redes. O mais importante é ser de verdade. “O varejo não precisa, de uma hora para outra, ter pontos de reciclagem em todas as unidades, mas deve ter consistência e um programa bem estruturado e que reflita, de maneira genuína, o propósito da empresa”.

O Grupo Carrefour tem essa preocupação. O trabalho nesse sentido começou em 2018, com o projeto global Act For Food, que engloba um conjunto de iniciativas que estimula a transição para uma alimentação mais saudável, sustentável e consciente, e que olha para o planeta suas necessidades. “Temos construído os nossos compromissos em linha com um olhar atento para as questões planetárias. Quando pensamos em nossas iniciativas, estabelecemos sempre uma relação com o tema”, diz Lucio Vicente, diretor de assuntos corporativos e sustentabilidade do Grupo Carrefour Brasil. Segundo ele, isso passa, por exemplo, pelo aspecto de combate ao desperdício e pelo controle e garantia de processos de governança no sistema de compra da empresa, garantindo que os produtos não sejam oriundos de fontes de desmatamento, ou que tenham uma alta geração de combustíveis fósseis, e impactem as mudanças climáticas.

Uma iniciativa recente da empresa é a parceria com a startup Green Mining e a Cervejaria Ambev para levar a ação de reciclagem para seis lojas Carrefour Express de São Paulo. Com o slogan “Pequeno Grande Passo”, a campanha disponibiliza, nos pontos participantes, coletores personalizados para descarte de vidro e embalagens plásticas vazias. Os recicláveis são recolhidos pelos coletores da Green Mining que levam o material até o ponto de concentração (hub). Ao atingir um certo volume, o material é prensado e destinado ao Rio de Janeiro para reciclagem, sendo o vidro levado direto para a fábrica Ambev Vidros e o PET destinado para a produção de novas embalagens de Guaraná Antarctica. Segundo Lucio, a ideia é estabelecer, por meio de uma logística reversa e inteligente, maior adesão do consumidor e fazer com que o processo de economia circular seja percebido como um ganho mútuo, tanto em relação ao que representa, a retirada de embalagens do meio ambiente, quanto ao retorno de insumos para a indústria, para que ela possa reutilizar e reinserir insumos dentro da cadeia produtiva novamente. “Trabalhamos também na conscientização e estímulo do consumidor. Os clientes que levam suas embalagens ganham, por exemplo, descontos em produtos. Ele entrega suas garrafas de vidro e ganha um cupom de desconto na compra de um novo produto igual”, afirma.

Mas Lucio faz questão de ressaltar que isso só é possível por meio de um trabalho colaborativo. “Esse é o segredo. Hoje em dia ninguém cria nada sozinho e a sustentabilidade segue a mesma linha. Não dá para construir nada que não tenha a participação de todos – essa é a essência”, completa.

Raio X da energia limpa no Brasil

O Brasil ultrapassou a marca de 1 milhão de unidades consumidores com geração própria de energia a partir da fonte solar. Isso representa 8,6 gigawatts de potência instalada operacional, equivalente a cerca de dois terços da potência da usina de Itaipú.

Como reflexo, há R$ 44 bilhões em novos investimentos no País e mais de 260 mil empregos acumulados desde 2012, espalhados pelas cinco regiões nacionais.

R$ 50,8 bilhões é a perspectiva de investimento do setor solar para 2022

Fonte: Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar)

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