Inflação mexe na forma como o varejo trabalha a categoria de chocolate na Páscoa

Elevação nos custos na matéria-prima fez supermercadistas alternarem os tipos de produtos de chocolate nas araras e gôndolas

Varejistas já estão expondo barras e bombons em “ilhas”, montadas na entrada ou em pontos estratégicos das lojas. A expectativa da ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados) é de um aumento de 5% em volume nas vendas de ovos, para 9.500 toneladas, que ainda vão ficar abaixo das 10 mil toneladas vendidas em 2019, antes da pandemia.

Na avaliação de Márcio Milan, vice-presidente da ABRAS, o consumidor não deixará de comprar chocolates, mas deve buscar mais ofertas e itens com preços mais baixos. “Houve aumentos importantes na pandemia. As embalagens subiram muito. Também tivemos altas em ingredientes usados na produção dos chocolates. O avanço de 12% [dos preços] é um somatório disso”, afirma Milan.


Enquanto isso, nos supermercados, as parreiras de ovos encolhem. A combinação entre inflação em alta e poder de compra em queda tem feito o brasileiro trocar cada vez mais o tradicional ovo de Páscoa por bombons e barras de chocolate. As antigas parreiras fartas de ovos se tornaram espaços mais enxutos, até 30% menores em relação ao período pré-pandemia.


O preço médio dos chocolates deve saltar 12% neste ano, diz a Abras. Além de mais caros, o valor dos ovos varia muito. Para ter uma ideia, o ovo de Páscoa de cem gramas da marca Kinder Ovo, da Ferrero, uma das preferidas das crianças, pode ser encontrado de R$ 53 a R$ 80 a unidade. “A venda de ovos de Páscoa vem caindo ano a ano”, disse Fábio Iwamoto, diretor do Chama Supermercados, rede com 15 lojas na zona leste da capital paulista. “O consumidor não está a fim de pagar caro por um ovo se consegue consumir o mesmo chocolate no formato de barras ou bombons”, diz ele, que tem apostado em ilhas de chocolates e colombas em pontos estratégicos das lojas. Na rede, o espaço dedicado às parreiras de ovos nesta Páscoa foi reduzido em 30% em relação a 2019, diz Iwamoto.


Segundo Diego Pereira, economista da Apas (Associação Paulista de Supermercados), a inflação tem feito o público buscar alternativas mais baratas em todas as categorias. “Os ovos, especialmente aqueles com brinquedos, ocupam muito espaço na loja e são muito caros para a média das famílias”, afirma Pereira. “Daí o fato de cada vez mais varejistas optarem pela redução das áreas ocupadas pelas parreiras e a instalação de ilhas de produtos com preços mais competitivos.”


Já a aposta do Carrefour está nos ovos de marca própria da rede. Produzidos pela paranaense Barion, os ovos do Carrefour são em média 30% mais baratos que os de marcas tradicionais. “Nesta Páscoa, o número de itens de marca própria aumentou de 9 para 17”, diz Allan Hock Cate, diretor de marca própria do Carrefour. Entre as novidades, uma marca própria premium, a Selection. “Também estamos expandindo as linhas de bombons e trufas, que são opções mais baratas para dar de presente do que os ovos”, diz Cate, que conta ainda com colombas da marca Carrefour, produzidas pela Romanato, de São Bernardo do Campo (SP).


Pesquisa recente da Asserj (Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro) sinalizou que mais de 80% dos consumidores estão buscando marcas mais baratas. Para Guilherme Mercês, consultor da Asserj, a derrubada de restrições neste ano, com mais famílias se reunindo, deve ajudar as vendas, mas a inflação ainda faz com que boa parte do público opte por chocolates com preços menores. “Essa deve ser uma tendência para a Páscoa.”

A tradicional marca Village, que desde -2000 fornecia ovos de Páscoa a preços mais competitivos que os das líderes, deixará de oferecer o produto neste ano. O aumento do preço dos insumos, especialmente de embalagens, tornou a operação inviável. Segundo o diretor comercial da Village, Reinaldo Bertagnon, os ovos da companhia serão oferecidos neste ano, em apresentação tradicional, sem a marca, apenas na Cepam -a tradicional padaria na zona leste de São Paulo que deu origem à marca. “Com a pandemia, o índice de devoluções de Páscoa ficou terrível. No ano passado, já reduzimos a oferta de ovos. E neste ano decidimos nem lançar o produto.”


O executivo chama a atenção em especial para o aumento dos preços do papel alumínio (50%) e do cacau (47%) no último ano. “Um ovo de 130 gramas por R$ 69 é muito caro para a maioria das famílias”, diz ele. “Ninguém está rasgando dinheiro, as pessoas cortam o supérfluo.”


Já a líder de mercado Lacta, da multinacional Mondelez, lançou ovinhos recheados de chocolate de 54 gramas, com preço sugerido de R$ 11,99, além de manter outros produtos tradicionais da data e aqueles com embalagens maiores. “Estamos trazendo opções que começam em R$ 4, R$ 5, até um ovo maior. Vão desde lembrancinhas até ovos para presentear e impressionar”, diz Renata Vieira, diretora de marketing de chocolates da Mondelez Brasil. Segundo ela, a expectativa é avançar em 10% nas vendas em relação ao ano passado.


Ale Costa, fundador e presidente da Cacau Show, vai na mesma linha. Segundo ele, a marca ampliou a Unha de produtos para a Páscoa, que parte de preços abaixo de R$ 10 até ovos acima de RS 100. “Atendemos a todos os tipos de bolso.” Costa afirma que a rede pretende aumentar em 60% as vendas frente à Páscoa do ano passado, ultrapassando os níveis pré-pandemia. O crescimento vem na esteira da abertura de franquias. Em 2021, a Cacau Show inaugurou 500 lojas. Neste ano, serão mil novas unidades, diz a empresa.


Como reencontro das famílias na Páscoa deste ano, celebrada em 17 de abril, grandes fabricantes de chocolates veem condições para crescimento nas vendas em 2022. “Vai ser uma Páscoa boa, mas não temos expectativa de voltar a épocas bem anteriores, em que a inflação estava menor, e o PIB, maior”, diz Ubiracy Fonseca, presidente da Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas).


“No ano passado, mesmo com restrições mais fortes, tivemos cenário positivo para as vendas. Neste ano, esperamos um momento melhor” diz Marcos Freitas, gerente de marketing de sazonais da Nestlé Brasil.
A marca espera um crescimento de “duplo dígito” na receita com a Páscoa de 2022, de acordo com o executivo. “A gente traz um portfólio bem variado, com diferentes sabores e formatos.”

Fonte: Daniele Madureira e Leonardo Vieceli, Folha de SP

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