“Banco” da Ambev decola e pode dobrar de tamanho

Donus atinge 80 mil contas digitais em junho e passa a oferecer empréstimo para bares e restaurantes. Também estuda um marketplace de serviços e vai, no futuro, abrir a fintech para outros setores da indústria.

Em um momento em que boa parte das empresas querem ter uma fintech para chamar de sua, a Donus está começando a descer redonda na estratégia da Ambev. Lançada no ano passado como uma iniciativa da Z-Tech, braço de corporate venture capital e de inovação da maior cervejaria do Brasil, a fintech atingiu 80 mil contas digitais em junho.

Parece um número pequeno quando se olha para tudo o que envolve a Ambev. Em especial, quando se observa o tamanho do mercado potencial: 800 mil bares e restaurantes que são atendidos pelos vendedores da dona das cervejas Skol, Brahma e Antarctica. Mas a conta digital, que entrou no ar no começo de 2020, só começou a avançar neste ano.

Agora, a fintech começa a escalar a operação e a adicionar cada vez mais serviços financeiros para esse contingente de pequenos bares e restaurantes, muitos deles à margem do sistema bancário. “Vamos dobrar esse número até o fim do ano”, diz Mauro Bizatto, CEO da Donus, que assumiu a fintech em setembro do ano passado, em entrevista ao NeoFeed.

A conta digital gratuita é a porta de entrada para uma série de serviços financeiros que a Ambev quer oferecer para donos de bares e restaurantes. Hoje, a Donus já fornece um cartão de débito gratuito e uma maquininha de pagamento.

Desde o começo do ano, a Donus está fazendo testes com empréstimos junto a esse público. As taxas começam em 1,5%, sem a necessidade de garantia. O funding do crédito é da própria Ambev. A aposta da fintech é no relacionamento de décadas que bares e restaurantes mantêm com a cervejaria.

A Donus desenvolveu algoritmos que analisam o histórico de relacionamento para evitar o risco de calote. “Temos apenas cinco meses e a performance da carteira é super saudável”, afirma Bizatto, que não abre o volume de empréstimos feito até agora. “Vai evoluir bastante, pois estamos tateando e testando.”

Nesse primeiro momento, o foco da fintech é no próprio ecossistema de clientes da Ambev. Tanto que a Donus desenvolveu uma solução que permite que os comerciantes façam pagamento direto à Ambev sem a necessidade de gastar com taxas de transferências. Explica-se: por serem negócios pequenos, que muitas vezes fazem compras de baixo volume, a maioria dos pagamentos é feito com dinheiro em espécie.

Outra iniciativa, colocada no ar em junho deste ano, foi  a extensão de pagamentos de boletos da Ambev. Atualmente, o comerciante paga na hora da entrega do produto. Com esse serviço, ele pode prorrogar a fatura por um período que vai de três até 15 dias – há uma taxa envolvida na transação.

“Existe uma oportunidade gigante para toda grande empresa que queira oferecer serviços financeiros”, diz Bruno Diniz, sócio da consultoria Spiralem. “No caso da Donus, ela atende um percentual grande de donos de bares e restaurantes que não são bem atendidos pelas soluções bancárias tradicionais.”

Nesse sentido, Diniz enxerga o iFood, que lançou também uma conta digital, como um potencial concorrente da Donus, por atender um público semelhante. “As duas operações têm a chance de tomar muita conta dos bancos por conhecerem bem esse público”, afirma o consultor.

Mas a Donus não quer ficar restrita ao público que é cliente da Ambev – em tese, qualquer estabelecimento comercial já poderia abrir uma conta digital na fintech da cervejaria, mas isso não é incentivado.

A intenção da Donus é começar a atender outras indústrias. É um plano de longo prazo, admite Bizatto, mas que já tem conversas em curso. “A mesma dor do estabelecimento da Ambev vai valer para outras indústrias”, diz o CEO da Donus. O foco sempre será o pequeno e médio comerciante.

Mas, antes de abrir a Donus para outros setores, o objetivo é aumentar a sua base de clientes em seu público preferencial. Em 2022, o objetivo é atingir 50% dos 800 mil bares e restaurantes atendidos pela Ambev.

Aos poucos, a fintech vai começar a oferecer mais serviços. Um deles é a criação de um marketplace diferente da Bees, uma plataforma B2B que permite fazer pedidos sem intermediários de produtos para bares e restaurantes – inclusive de concorrentes da Ambev.

A ideia de Bizatto é construir um marketplace de serviços para bares. “São serviços como o de eletricistas, de obras e para arrumar a geladeira do comerciante”, diz Bizatto. “Mas para isso eu preciso ter uma base maior.”

Braço de inovação

A Donus faz parte da Z-Tech, iniciativa criada pela AB InBev, dona da Ambev, como um hub de inovação. Sua missão é digitalizar o pequeno varejo, buscando soluções para que sejam mais eficientes ou possam reduzir seus custos.

Com presença nos Estados Unidos, México e Brasil, os investimentos da Z-Tech se concentram em startups que ajudem o universo que vai de bares a restaurantes e de padarias a supermercados.

No Brasil, já fez quatro investimentos. Um deles foi na Lemon, uma plataforma que facilita a conexão entre a geração de energia limpa e os pequenos e médios negócios com o uso de tecnologia.

Outra startup que faz parte do portfólio da Z-Tech é a Get In, um aplicativo que faz reserva online. A Menu, um marketplace de alimentos, bebidas e produtos de limpeza, acabou sendo incorporada pela Ambev.

No caso da Donus, ela foi criada dentro da Z-Tech, em uma estratégia de venture builder. Bizatto, que foi contratado para ser o CEO da fintech, veio do Santander, onde atuava no programa de fidelidade Esfera. Ele também tem passagens pelo Bradesco.

Ao chegar à Donus, a primeira grande diferença que notou no seu dia a dia foi a maneira de conversar com o cliente. Nos bancos, o contato acontecia em salas refrigeradas na frente do computador. Na Ambev, a ordem sempre foi gastar a sola de sapato e visitar os bares. “É uma prática semanal”, diz Bizatto.

Só assim, o executivo pode perceber que os comerciantes não entendiam o que era “cashback”, um benefício que recebiam quando pagassem a Ambev com a conta digital da Donus. A solução foi usar o bom e velho português: dinheiro de volta.

Dessas visitas aos varejistas, sacadas são tiradas. Um exemplo foi a reclamação de um comerciante, que fazia o pedido e nunca sabia quando a entrega seria feita. A única pista que ele tinha era quando a nota fiscal era faturada, um indicativo de que no dia seguinte o caminhão da Ambev passaria pelo bar.

“Agora, quando eu faço a carga do caminhão, envio um SMS ou uma notificação pelo aplicativo avisando que a entrega será feita no dia seguinte”, afirma Bizatto. “A nota faturada é a certeza da entrega.”

Fonte: Por Ralphe Manzoni Jr., Neofeed

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