Dieta flexitariana é tendência global

Saiba mais sobre o comportamento dos consumidores que buscam dietas sustentáveis

Felizmente, uma parcela significativa da população mundial, principalmente das classes mais privilegiadas, tem percebido cada vez mais que suas escolhas alimentares estão entre as ações individuais mais significativas em termos de impactos sobre si mesmo, o meio ambiente, a economia e a sociedade.

Não surpreende, porém, que o grande indutor das mudanças de hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis seja a preocupação com a própria saúde. O relatório global “Rise of Plant Based Eating and Alternative Proteins: Understanding Flexitarians and Growth Trends”, da Euromonitor International, provedora de pesquisa de mercado, mostra que há um crescimento no número de consumidores que procuram adotar o flexitarianismo, dietas nem totalmente vegetarianas ou veganas nem puramente carnívoras ou focadas em produtos de origem animal —ou seja, dietas que buscam um equilíbrio.

Segundo o estudo, quase 1 em cada 4 consumidores no mundo (23%) está tentando limitar a ingestão de carne, percentual que era de 21% em 2019; 16% estão tentando seguir uma dieta baseada em vegetais; 15% estão limitando a ingestão de laticínios; enquanto 6% seguem atualmente uma dieta flexitariana, baseada principalmente em vegetais.

Os três principais motivos que levam à adoção dessa dieta são: sentir-se mais saudáveis (49% dos respondentes), buscar a melhora da saúde digestiva (43%) e do preparo físico (42%). O estudo enfatiza ainda a forte percepção por parte dos consumidores da relação entre hábitos alimentares e saúde: entre as dez principais definições de saúde, “ter uma alimentação balanceada” ocupa a oitava posição, com 51,4% das menções.

Ao longo destes 20 anos de trajetória do Instituto Akatu desenvolvendo ações de sensibilização e mobilização para o consumo consciente e pesquisas para compreender melhor o comportamento do consumidor, um de nossos aprendizados diz respeito justamente à maior facilidade das pessoas adotarem um hábito mais sustentável quando os benefícios por ele gerados são claros e diretos, sobretudo se impactam a elas próprias. De outro lado, o desafio posto é a dificuldade de fazer com que o consumidor relacione suas escolhas diárias de consumo com os efeitos negativos sobre o meio ambiente, por exemplo.

O relatório da Euromonitor, entretanto, traz números que sugerem um crescimento da percepção dessa relação por parte dos consumidores, já que preocupações ambientais (para 39% dos respondentes) e direitos dos animais (38%) ocupam as sexta e oitava posições, respectivamente, entre os motivos que levam o consumidor a buscar dietas flexetarianas. Além disso, 72% dos consumidores que hoje adotam uma dieta flexitariana ou baseada principalmente em vegetais tentam ter um impacto positivo no meio ambiente por meio de todas as suas ações do dia.

A tendência crescente de adoção de dietas mais saudáveis e sustentáveis se apresenta, portanto, como uma oportunidade para que empresas, governos e organizações da sociedade civil invistam na educação do consumidor sobre os impactos socioambientais associados à agropecuária, sensibilizando-o e mobilizando-o a fazer escolhas melhores.

Por outro lado, é uma oportunidade de investir em tecnologias e políticas para impulsionar a oferta de alternativas substitutas da carne bovina, produzidas de maneira mais sustentável, e dos alimentos feitos à base de plantas, criando uma comunicação eficaz para informar ao consumidor sobre os benefícios decorrentes de seus atributos de sustentabilidade para o meio ambiente, para ele próprio, a sociedade e a economia.

Vale lembrar que o consumo não é meramente uma decisão individual, mas, sim, uma prática coletiva, o que significa dizer que outros atores sociais —empresas, governos e organizações sociais— viabilizam ou limitam as escolhas mais saudáveis ou sustentáveis do consumidor em função da sua atuação cotidiana ou episódica. Ainda que as pessoas desejem e estejam tentando mudar seus hábitos alimentares na direção de dietas mais saudáveis e sustentáveis, é preciso que tenham condições apropriadas que as viabilizem.

Isso se reflete nas principais barreiras que o consumidor enfrenta para a adoção do flexitarianismo, também indicados no estudo da Euromonitor: o alto preço (37% dos respondentes), a falta de tempo para cozinhar (27%) e a percepção de que alimentos não saudáveis ​​são mais convenientes (26%).

Esses dados vão ao encontro dos desejos dos consumidores brasileiros identificados na Pesquisa Vida Saudável e Sustentável 2020, realizada por Akatu e Globescan. Quando perguntados de que forma as empresas podem ajudá-los a viver melhor, 45% dos respondentes indicaram que as companhias devem “criar produtos melhores e mais acessíveis” e 42% disseram que elas devem desenvolver “novos produtos, melhores para o meio ambiente e para a sociedade”.

O estudo também se propôs a entender quais as responsabilidades das empresas na visão do consumidor e 78% dos respondentes apontaram que é “garantir que seus produtos não agridam o meio ambiente”, enquanto 70% indicaram que é “oferecer produtos de qualidade a preços acessíveis”.

Os desejos e as necessidades das pessoas estão postos. Cabe aos demais atores sociais, principalmente às empresas e aos governos, estarem atentos para desenvolverem estratégias eficazes para adaptar produtos, criar alimentos à base de proteínas alternativas ou de plantas, investir em cadeias produtivas inovadoras e tornar seus produtos mais acessíveis, impulsionando, assim, a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis como deseja uma parte dos consumidores.


Fonte: Helio Mattar, Folha

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