JBS compra empresa espanhola e entra no mercado de carne cultivada em laboratório

Companhia também construirá, no Brasil, um centro de pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia de alimentos e de proteína cultivada 

A picanha de laboratório talvez ainda pareça futurista, mas a JBS encontrou uma tecnologia viável para produzir hambúrguer, quibe e outros alimentos preparados a partir do cultivo de células. Depois de escarafunchar o estado de desenvolvimento das tecnologias nos últimos três anos, a companhia acaba de anunciar a aquisição do controle da espanhola BioTech Foods.

O M&A integra um abrangente plano da JBS para liderar a indústria de carne cultivada, uma tecnologia que ainda não atingiu escala comercial, mas já atraiu o capital de personalidades como Bill Gates, Richard Branson e Leonardo DiCaprio tamanho é o apetite por alternativas ao sacrifício animal — e, claro, por uma redução substancial nas emissões de gases de efeito estufa.

Maior indústria global de carne bovina e dona de um faturamento anual de US$ 65 bilhões, a JBS separou US$ 100 milhões — o equivalente a R$ 550 milhões — para se consolidar como um grande player em carne cultivada a partir de células.

Uma parcela desse montante será desembolsada para assumir uma participação majoritária na BioTech Foods, mas o pacote também inclui US$ 41 milhões para a construção de uma fábrica na Espanha. Os recursos contemplam ainda a criação de um centro de P&D dedicado ao tema no Brasil.

“Quando a gente entra num negócio, é para ter posição de liderança”, enfatizou o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, ao Pipeline.

Ao contrário de outras startups que começaram o desenvolvimento das carnes cultivadas buscando chegar ao bife perfeito, o que é mais complexo por causa da dificuldade de emular a fibra muscular, a BioTech Foods iniciou pela proteína desagregada (trocando em miúdos, a startup criou um produto parecido com a carne moída).

A partir da carne desagregada, é bem mais fácil produzir itens como hambúrguer, quibe, almôndega e embutidos. Eduardo Noronha, o executivo responsável pela área de inovação da JBS, já provou o hambúrguer da BioTech Foods e não se arrepende. “É exatamente a mesma coisa que um hambúrguer de carne”.

A validação da tecnologia da BioTech Foods — o tecido celular é obtido com uma biópsia e a partir daí é cultivado — deu segurança para a JBS não só assumir o controle do negócio como já iniciar a construção de uma fábrica em escala comercial em 2022. No desenvolvimento da tecnologia, a startup recebeu recursos da Comissão Europeia e do governo espanhol.

A unidade será construída no País Basco, comunidade autônoma da Espanha onde está sediada a planta piloto da BioTech Foods. A fábrica terá capacidade para produzir 1 mil toneladas por ano. Nos testes, a startup produz apenas 1 tonelada por ano.

Um desafio crucial para tornar o produto palatável é o preço. Atualmente, o quilo de um produto como esse não sai por menos de US$ 600, mas a tecnologia vem se desenvolvendo rapidamente e os executivos da JBS estão confiantes numa solução de escala.

“Veja o que aconteceu com os chips. Era um absurdo e hoje custam pouco”, diz Noronha. De fato, já houve uma drástica redução de preço desde que a carne de laboratório começou a ser testada. Há dez anos, um hambúrguer desses chegava a valer US$ 280 mil.

Ao assumir o controle da BioTech Foods, a JBS dá um passo diferente de concorrentes como as americanas Cargill e Tyson e a brasileira BRF, que fizeram aportes minoritários. A dona da Sadia, por exemplo, aplicou US$ 2,5 milhões na rodada série B da Aleph, startup israelense que levantou US$ 105 milhões e vem trabalhando para desenvolver, aí sim, um bife — se a parceria chegar a um produto comercialmente viável, a companhia brasileira vislumbra construir uma fábrica em 2024.

“Ao invés de sermos um investidor, nossa opção foi ser um produtor. Fizemos a aquisição de tudo, inclusive das patentes. Os técnicos que desenvolveram permanecem conosco e agora são sócios do negócio”, diz Tomazoni.

Na Espanha, o time da BioTech Foods seguirá à frente do negócio. A startup foi fundada em 2017 por dois espanhóis: a CTO Mercedes Vila Juárez, uma especialista em física dos materiais para biomedicina que já ganhou prêmio da Unesco no programa Mulheres na Ciência; e o CEO Iñigo Charola, experiente na área comercial.

Por aqui, a JBS também vai fomentar as pesquisas, criando um centro de P&D que será liderado pelos cientistas Luismar Marques Porto, pesquisador visitante em Harvard e no MIT, e Fernanda Vieira Berti, que criou uma startup que trabalha com medicina regenerativa e células-tronco voltadas para o tratamento de animais. Localizado em um espaço de 10 mil metros quadrados, o centro terá 25 pesquisadores. O movimento na Europa é complementado pelo Centro de Pesquisa em Proteína Cultivada no Brasil.

Fonte: Por Luiz Henrique Mendes, Pipeline – Valor

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