Pandemia aquece consumo de orgânicos no varejo

Jovens conectados respondem por 20% das compras online dos hortifrútis sem agrotóxico e produtos químicos

Quase 70% dos produtores brasileiros de orgânicos registraram aumento das vendas no mercado doméstico no primeiro semestre deste ano, e 73% viram as exportações crescerem no período, de acordo com pesquisa que a Associação de Promoção da Produção Orgânica e Sustentável (Organis) fez com seus mais de 70 associados. Para o segundo semestre, 77% estão confiantes de que os negócios continuarão em expansão.

O mercado de produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos e outros insumos químicos cresceu 30% no ano passado no país, estima a Organis. Cobi Cruz, diretor da entidade, realça que foi uma alta excepcional em relação ao ritmo até então. Mas, apesar de ter movimentado R$ 5,8 bilhões em 2020, de “dentro da porteira” até as vendas finais – as exportações representam cerca de 20% do total -, o Brasil ainda tem uma participação pequena no mercado global de orgânicos, que gira US$ 120 bilhões ao ano. O país tem cerca de 25 mil propriedades certificadas como produtoras de orgânicos.

Segundo Cruz, a crise provocada pela pandemia da covid-19 estimulou o segmento a explorar novas formas de vendas online, reduzindo a distância entre produtores e consumidores, e despertou a população para a necessidade de uma alimentação mais saudável – é nítida, por exemplo, a preocupação das gerações “millenial” e “Z” com a origem daquilo que compram e ingerem.

Consumidores jovens e conectados explicam o porquê de a venda de orgânicos estar crescendo mais online, por meio de serviços de delivery e da comercialização de cestas, do que no grande varejo. “Em 2019, cerca de 1% das compras eram feitas online. Agora, o percentual já chega a 20%. É uma quebra de paradigma. E não é só no caso de produtos frescos, mas também nos de fácil preparo, que chamamos de práticos”, diz Cruz.

Alex Lee, diretor comercial da Rio Bonito Orgânicos, localizada em Itatinga (SP), ressalva, porém, que as vendas nos supermercados recuaram acentuadamente durante a pandemia, a níveis que não eram vistos há mais de uma década. Diante disso, o meio digital tornou-se uma ponte importante para conectar produtores e consumidores.

“Isso tem dado oportunidade a pessoas que não tinham chance de oferecer seus produtos. A logística é uma questão difícil para os orgânicos. Vender é a grande dificuldade, mais do que produzir. Com isso, de repente abriu-se um mercado inteiro para esses agricultores”, diz Lee.

O varejo é o foco da Rio Bonito, que atua na produção e distribuição de frutas e legumes orgânicos. Hoje com 90 produtores parceiros e 120 toneladas vendidas por semana, a companhia está presente em 400 supermercados, em 11 Estados do país. Lee estima que os negócios da Rio Bonito regrediram 15% ante o patamar pré-pandemia e atribui a baixa ao menomenor poder aquisitivo da população brasileira.

As vendas de produtos especiais, como o tomate sweet grape que a companhia produz, recuaram ainda mais nas gôndolas, conforme Lee. Mas o executivo da distribuidora de orgânicos acredita que, com a vacinação contra a covid-19 avançar e a retomada econômica se consolidar, as vendas vão se recuperar. “Crescemos 76% em 2019”, lembra.

Cruz, da Organis, endossa e diz que os orgânicos “entraram na mente do consumidor”, de forma que tão logo a população recupere seu poder de compra, a demanda como um todo vai aumentar ainda mais. “É um trabalho de educação que está vindo com muita força”.

Erra quem pensa que a produção de orgânicos se limita a hortifrútis. Mesmo quando se fala em commodities como soja, milho, café e açúcar, há muitos produtores que investem nessa forma de cultivo, seja para acessar mercados com preços diferenciados ou por filosofia – ou pela combinação das duas coisas.

A família Dutra, da região de São João do Manhuaçu (MG), foi uma das que viram o modelo que já explorava ser valorizado. O patriarca José Dutra Sobrinho, falecido em 1999, criou os filhos Ednilson e Walter Dutra para respeitar e proteger a terra em que produziram, segundo eles. “Continuamos a fazer essa agricultura que respeita a natureza. Quando as certificações surgiram, nos enquadramos facilmente. Já era a nossa filosofia produzir sem agrotóxicos, sem nenhum tipo de agressão ao ambiente”, afirma Ednilson.

Hoje, a família cultiva café orgânico em cerca de 700 hectares, sendo que outros 400 hectares já adquiridos estão em processo de transição. “É uma aposta ousada. A gente acredita que o

mercado consumidor tem condições e está disposto a absorver esse produto”, diz o empresário.

Os cafezais dos Dutra são plantados em curva de nível, de forma a proteger as nascentes, e estão rodeados por plantações de abacate nos pontos mais altos, que servem como quebra-ventos naturais. A família também utiliza energia solar e transforma os resíduos da produção em adubo orgânico, por meio de compostagem. Também está nos planos aumentar o número de abelhas no local, para produzir mel e ajudar na polinização. “O orgânico não pode ser uma monocultura, precisa ter outras coisas envolvidas, para ter um microclima”, observa Ednilson.

Ele conta que a propriedade é relativamente grande – ele e o irmão produzem juntos -, mas realça que pequenos produtores também podem aderir ao cultivo orgânico. “É um futuro para o micro e pequeno produtor. E não só financeiramente: ele também terá mais saúde para a família dele e cuidará do meio ambiente”, diz.

Fonte: Por José Florentino, Valor

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