Ambev fomenta cultivo do lúpulo e atrai investidores

Primeira safra cheia deve ser colhida este ano no Projeto Fazenda Santa Catarina

Depois de deixar o trabalho na bolsa de Valores, o paulistano Alexander Creuz, de 46 anos, reencontrou a ABEV3 – ou melhor, a Ambev – no interior de Santa Catarina, agora como fornecedor de lúpulo para fabricação das cervejas da companhia brasileira.

Largar décadas no mercado financeiro e a vida na maior metrópole da América Latina para estudar agronegócios e se tornar produtor rural não foi uma decisão fácil, mas Creuz afirma que só se arrepende de não ter feito isso antes. E, na ponta do lápis, as contas mostram que a escolha foi positiva.

A produção de lúpulo tem um custo significativo para implementação, porém a projeção é de que o lucro líquido varie entre R$ 70 mil e R$ 80 mil por hectare, segundo ele. Se tudo correr como planejado, com a primeira safra cheia sendo colhida neste ano, o retorno do investimento deve vir em até 40 meses.

O fato de a área necessária ser pequena foi determinante para a opção pelo lúpulo – a propriedade de Creuz, localizada em Lages (SC), tem 12 hectares. “Para ter essa rentabilidade com a soja, por exemplo, precisaria de muito mais área”, explica. Pesquisas indicam que o lucro da oleaginosa gira em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil por hectare.

O lúpulo, ou pé-de-galo, é uma planta da espécie Humulus lupulus, da família Cannabaceae. É nativa de Europa, Ásia ocidental e América do Norte. Sendo uma trepadeira, costuma medir entre 4,6 e 6,1 metros de altura.

Sabor amargo

Na fabricação de cerveja, durante o processo de cozimento com malte, água e levedura, a planta libera resinas de sabor amargo, dando à bebida seu sabor característico. O lúpulo também é um conservante natural. No passado, era adicionado ao barril de cerveja após a fermentação para manter a bebida fresca enquanto era transportada.

Hoje, praticamente todo o lúpulo utilizado pelas cervejarias do país é importado. No ano passado, a indústria gastou U$ 82 milhões na compra de aproximadamente 4.700 toneladas do insumo vindo de outros países, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolupulo) divulgado no ano passado, a área plantada no país é de pouco mais de 40 hectares, e a produção gira em torno de 24 toneladas.

Fomento ao cultivo

Maior cervejaria da América Latina, a Ambev quer fomentar o aumento do cultivo no Brasil. Creuz afirma que a ajuda é mais do que bem-vinda. “Uma coisa sou eu, pessoa física, bater na sede da Epagri [órgão de assistência técnica de Santa Catarina] e pedir auxílio técnico. Outra é a Ambev”, brinca ele, que já foi presidente da Aprolupulo, associação que representa produtores.

Creuz faz parte do projeto Fazenda Santa Catarina, da Ambev, que começou em 2020 e, desde então, realizou testes de manejo e variedades que aumentem a produtividade e garantam renda. No segundo semestre do ano passado, a Ambev começou a produção e a doação de mudas para os produtores.

“Esperamos fomentar essas economias locais, além de produzir cerveja com mais qualidade ao termos um lúpulo mais fresco”, afirma a head de Conhecimento e Cultura Cervejeira da Ambev, Laura Aguiar. Segundo ela, a primeira safra significativa do projeto deverá ser colhida neste ano, mas não há estimativas de volume.

A companhia também está atraindo reforços para alavancar o cultivo. No fim de dezembro, anunciou uma parceria com a Silver Hops, agtech criada dentro da Fazenda Pratinha, na região de Ribeirão Preto (SP), com foco em tecnologias para o lúpulo.

“Nosso papel será complementar o trabalho que já está sendo realizado com a agricultura familiar através do olhar da pesquisa e da inovação”, afirma José Braghetto Neto, responsável pela Silver Hops.

Fonte: José Florentino, Valor

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