Disparada no preço da carne e crise acentuam furto da proteína nas lojas

Rede paulista revela que indicador de perdas no açougue subiu 33% este ano ante 2020

Se tem um indicador que os supermercadistas querem que seja o mais próximo de zero possível é o que se refere às perdas sobre o faturamento.

O último dado da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), de 2020, identificou um índice médio de 1,79% sobre a receita bruta das redes, um dos menores da história.

Mas tudo indica que em 2021 o cenário vai ser diferente. Este número pode ultrapassar 2%, de acordo com supermercadistas e especialistas em prevenção de perdas de empresas.

Nos últimos quatro meses, redes identificaram um aumento expressivo nos furtos de produtos de maior valor, especialmente na linha de carnes mais nobres, como a picanha.

A alta do preço da carne, que supera os 30% somente no primeiro semestre, e a queda de renda, são os principais motivos, de acordo com supermercadistas, para o aumento de furtos.

Com 31 lojas no Estado de São Paulo, a rede Coop informa que o indicador de perdas no açougue aumentou 33% de janeiro a setembro deste ano sobre igual período de 2020.

`Parte deste incremento está relacionada ao aumento de furtos interno (por funcionários) e externo (por consumidores)`, afirma Gernaldo Gomes dos Santos, diretor da Coop.

No ano passado, o índice médio de perda nos açougues no país, de acordo com a Abras, foi de 2,62% sobre a receita bruta, já acima do dado médio geral de perdas do setor.

Se este aumento de 33% verificado pela Coop valesse para todo o setor, diz Gomes dos Santos, o indicador de perda dos açougues das redes brasileiras chegaria perto de 3,5% neste ano.

Perdas superiores a 2% em qualquer rede de supermercado já deveriam acender um sinal de alerta dentro das empresas, de acordo com especialistas em prevenção.

Num setor de grande concorrência como o de supermercados, quanto menor a perda, maior o lucro, já que as perdas geram prejuízo.

Há dois tipos de perda nos supermercados, a conhecida e a não-conhecida.

A conhecida é aquela que, por alguma razão, o produto não passou pelo caixa porque estava com prazo de validade vencido ou estragado, por exemplo.

A desconhecida, quando o produto some da loja, é aquela identificada somente por meio do processo de inventário, de contagem de mercadorias nas lojas.

Nos supermercados, geralmente, a perda conhecida é maior do que a desconhecida, numa proporção de 60% e 40%, respectivamente.

Neste momento, a causa principal do aumento da perda desconhecida é o furto, de acordo com informações de supermercadistas e especialistas em prevenção de perdas.

`A carne sempre foi um produto desviado, só que, com a crise e a alta de preços, a situação se agravou`, afirma Vanessa Urbieta, gerente de negócios da Inwave, empresa que desenvolve e produz equipamentos para a prevenção de perdas.

O consumo de carne bovina no Brasil deve cair 14% neste ano em relação a 2019, o menor nível em 26 anos, de acordo com previsão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Com mais de 15 anos na área, Vanessa diz que um levantamento recente da Gatecash, sistema de monitoramento de frente de caixa, que pertence à Gunnebo, com cerca de dez redes e aproximadamente 180 caixas, revelou alta de 1.000% no valor nominal das perdas dos açougues.

`PICANHEIROS`

De acordo com ela, o que tem ocorrido com frequência é o consumidor colocar peças de carnes embaixo ou dentro da roupa, além de invasões de quadrilhas nas lojas de madrugada.

Uma cliente foi pega recentemente em uma grande rede de supermercado, conta ela, com cinco peças de carne no corpo. A intenção era vender os produtos no mercado paralelo.

`Os chamados `picanheiros` vendem as carnes, geralmente, pela metade do preço. Uma peça que custa R$ 50 no supermercado, sai por R$ 25 no mercado paralelo`, diz ela.

Gomes, da Coop, diz que o furto não está restrito à população de baixa renda. Está disseminado em todas as classes sociais, e concentrado em produtos mais caros.

`Com crise e pandemia, a renda das famílias diminuiu, e muitas pessoas, como as operadoras de caixa, não querem mudar o padrão de consumo, optando pelo desvio`, diz Anderson Basílio, consultor de varejo ligado à prevenção de perdas.

De acordo com sua percepção, a perda somente por furto em duas redes que assessora, uma da região Sul e outra na Norte, que, juntas, possuem quase 2 mil checkouts, aumentou 25%.

`Os fraudadores, de forma geral, tendem a efetuar o furto recorrentemente. Existem açougues espalhados pelo país que só comercializam produtos desviados`, diz.

Há um caso de um funcionário que trabalhava em um açougue de uma rede que abriu uma loja em uma comunidade abastecida exclusivamente com carne desviada do supermercado.

De acordo com a Abrappe (Associação Brasileira de Prevenção de Perdas), os furtos externos e internos participam com 17% e 7%, respectivamente, das causas das perdas totais das redes.

Outras razões são: quebras operacionais (39%), erros de inventário (12%), erros administrativos (11%), fornecedores (7%) e outros (7%).

Algumas seções das lojas têm, tradicionalmente, perdas maiores do que outras, como a de frutas, legumes e verduras, com índice de 5,25%, em 2020, de acordo com a Abras.

Na seção de padaria e confeitaria, o indicador de perda no ano passado foi de 2,74% e, na de rotisseria e comidas prontas, de 4,32%.

Para Sandro Benelli, consultor de varejo, com anos de experiência em supermercados, não dá para afirmar que há uma relação direta entre crises econômicas e furtos nas lojas.

No caso de carnes, diz ele, os supermercadistas precisam prestar atenção sempre se o rendimento do produto, por exemplo, está atualizado para ser colocado na margem de venda.

`A carne vem em peças e, quando é tirada a gordura, há perda. Se uma peça de cinco quilos resultou em 4,5 quilos, o rendimento foi de 90%. Este número precisa estar atualizado.`

De acordo com ele, é preciso analisar passo a passo todos os processos do produto na loja, da chegada à saída, se estoques estão adequados, pois qualquer falha resulta em perda.

COMO EVITAR

Gustavo Carrer, gerente comercial da Inwave, sugere alguns procedimentos para inibir os furtos na seção de açougue.

Expor as carnes nobres em pontos de fácil visualização (evite pontos cegos)

Expor menores quantidades e aumentar a frequência de abastecimento

Passar fita adesiva transparente sobre a etiqueta de preços (evita fraudes por troca de produto)

Fazer inventários mais detalhados e frequentes

Treinar equipe do açougue, caixas e repositores para conhecimento dos tipos de carne e principais tipos de furtos e fraudes

Tecnologias disponíveis no mercado também podem ajudar o comerciante a evitar furtos, de acordo com Carrer. Veja algumas dicas.

Instalar monitores de auto visualização (inibição)

Utilizar sistema de proteção eletrônico de mercadorias (antenas nas saídas das lojas)

Aplicar etiquetas nas peças de carne (diversos modelos) que, posteriormente, são desacopladas ou desativadas ao passar nos caixas

Implantar sistema de monitoramento de caixas, que permite a detecção de possíveis fraudes, bem como auditar vídeos de cupons conforme os diferentes tipos de perdas

A rede Coop, de acordo com Gomes, aumentou a frequência de monitoramento de câmeras desde o recebimento dos produtos até o registro de saída no caixa.

A contagem dos produtos também passou a ser feita de hora em hora.

No caso de produtos mais caros, como a picanha, passou a utilizar nas peças uma espécie de redinha, chamada de aranha, que funciona como um alarme.

`Melhoramos os controles de processo, conferências de produtos, e ajustamos a compra de acordo com a demanda de cada loja. As perdas já começaram a se estabilizar`, diz ele.

Fonte: Por Fátima Fernandes, Diário do Comércio online

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