Imaginando 2050

Observando as tendências da sociedade e do setor de supermercados, é possível traçar uma estimativa de como será a operação e papel do varejo alimentar e sua relação com os consumidores

*Por Francisco Rojo

Depois da tempestade vem a bonança. A humanidade passa por um dos períodos de “inverno” mais rigorosos de sua história, mas os próprios ciclos de natureza mostram que depois virá a “primavera”.

Em 1980, comecei a trabalhar com o setor de supermercados. Mais especificamente em pesquisas de comportamento dos consumidores e logo depois com planejamento e expansão de supermercados, “atacarejos” e “varecados”, atividades que mantenho até os dias de hoje.

Os supermercados têm um papel fundamental no cotidiano das pessoas. De certa forma, expressam a síntese da sociedade, representada pelos produtos ofertados, ambientação, tecnologia, etc.

Desde os anos 1980, tive oportunidade de frequentar muitas feiras de negócios no Brasil e no exterior. Visitei supermercados em cerca de 30 países diferentes e percebi que, além de observar a atividade, é uma forma de conhecer algumas características culturais, sociais e hábitos do povo que ali reside.

Nas feiras de negócios, sempre foi muito comum encontrar uma profunda reflexão sobre as tendências e apresentações sobre “os supermercados do futuro”. Uma forma de estimular a imaginação, a criatividade e formar a base para articulação dos elementos que definem o trabalho ao longo dos próximos anos.

Sempre acreditei, trabalhei e continuo acreditando em um mundo melhor. Na realidade, como jovem, em início de carreira, eu imaginava que hoje já teríamos alcançado uma condição melhor para nossa sociedade como um todo. De qualquer forma, evoluímos e nos aprimoramos. Apesar do “inverno” atual, estamos formando os alicerces para construção de um futuro melhor.

Observando as tendências da sociedade e do setor de supermercados, sem a pretensão de prever o que vai acontecer, mas sim de contribuir com uma reflexão, fico imaginando como estaremos no ano de 2050 e quero compartilhar algumas percepções e reflexões:

 Valores – predomínio da ética, respeito, ajuda mútua e cooperação entre empresas e indivíduos.

 Sustentabilidade – proteção ambiental, energia limpa, embalagens recicláveis, veículos elétricos e redução de riscos climáticos.

 Tecnologia e os meios digitais – potencialização dos desenvolvimentos das últimas décadas conduzindo a sociedade a uma vida cada vez mais prática, simples, ágil e eficiente com efeitos diretos sobre informação, comunicação e compras. A descentralização do trabalho e as oportunidades para microempreendedores devem ser uma consequência natural.

Comportamento do consumidor:

o Consolidação de hábitos voltados a uma alimentação mais prática e saudável.

o Menor ênfase na posse de bens e maior atenção à liberdade e qualidade de vida.

o Valorização dos processos de compras mais simples e diretos.

o Com mais tecnologia disponível que acabam levando à introspecção e individualidade, é provável que as pessoas busquem cada vez mais o equilíbrio com atividades que levem ao convívio social, relações humanas e conexão com a natureza.

 E-commerce – é evidente e óbvia a realidade e a tendência para compras por meios digitais, principalmente para produtos não alimentícios, refeições prontas e alguns tipos de serviços. As novas tecnologias devem trazer mais praticidade e oportunidades para o crescimento desses canais.

 O setor de supermercados

o Micro Marketing – atendimento ao consumidor de forma individualizada com base em conhecimento do comportamento de compras e respeito à privacidade.

o Alta tecnologia em todo o processo de abastecimento e comercialização proporcionando economia e melhor relação benefício / custo aos consumidores.

o Funcionários com formação voltada para atitude respeitosa, ética e qualificação técnica para melhor atendimento.

o É provável uma seleção natural, em que as empresas com operação eficiente permanecerão no mercado.

 Expansão e formato de lojas

o Apesar da inegável tendência do e-commerce, estudando e observando o comportamento de compras, ainda acredito que no caso dos supermercados, esse canal deverá representar pequena parcela do faturamento total. Pessoalmente estimo algo em torno de 10 a 15%.

o Imagino lojas com muita tecnologia para simplificar o processo de compras, variedade voltada à saúde e praticidade. Qualidade será fundamental, mas acredito em uma sociedade atenta à economia e formatos voltados a esse atributo.

o As experiências proporcionadas ao consumidor no ambiente de compras devem ser aprimoradas, reforçando fatores emotivos que despertam sensações tipicamente antigas àqueles que vivenciam a satisfação do processo de compras em um mercado.

o Observamos atualmente um forte planejamento e expansão de lojas físicas por parte de empresas de grande, médio e pequeno porte. Acredito que essa tendência permaneça, até para dar suporte à estrutura logística necessária para melhor atendimento e conveniência ao mercado.

É possível imaginar e até perceber tendências. Qualquer que seja a realidade que iremos construir, acredito firmemente que em breve chegaremos à “primavera” e dias melhores virão.

*Francisco Rojo é consultor em varejo de alimentos desde 1980 e sócio da Rojo Estratégia em Varejo. É graduado, mestre e doutor em Marketing pela FGV, onde foi professor durante 25 anos. Tem especialização em Marketing de Alimentos pela Universidade de Cornell e é autor de livros e vários artigos publicados. Contatos: pesquisa@franciscorojo.com.br; www.franciscorojo.com.br

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