Coopetição é a palavra de ordem no varejo moderno

João Galassi fala das atuais apostas e metas da entidade e destaca a dinâmica preparada para a Convenção ABRAS 2021, que será realizada na cidade paulista de Campinas


Ele nasceu em Campinas, em uma família com vocação para o comércio. O primeiro negócio foi um botequim, aberto em 1964 e comandado pelo seu pai, o sr. João Galassi, no bairro São Vicente. Segundo relatos da mãe – dona Angelina, que trabalhou na lavoura e depois migrou para Campinas com o marido -, o bairro não tinha água tratada, luz elétrica e muito menos asfalto. O boteco vendia de banana até pinga.
Depois, passou a ser mercearia e, em seguida, um pequeno armazém. Ao ficar viúva, d. Angelina assumiu o negócio junto aos seus quatro filhos, entre eles João Carlos Galassi. Atualmente, a rede Galassi tem quatro supermercados localizados em diferentes bairros da cidade. Portanto, o caminho que se seguiu para João Carlos Galassi foi natural. Formou-se em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), fez MBA em Gestão de Pessoas pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e continuou tocando os negócios da família, ajudando a desenvolver a rede de Supermercados Galassi, com mais de 50 anos de existência. Empresário, investidor,
membro de conselho de administração e líder setorial, ele já ocupou a presidência da Associação Paulista de Supermercados (Apas), entre 2010 e 2014, e, atualmente, é o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS).
Galassi recebeu uma entrevista-convite do presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni, para contar um pouco sobre suas expectativas à frente da entidade do setor supermercadista e as impressões e perspectivas em meio à revolução provocada pelas mudanças impostas pela pandemia da covid-19.

João Carlos Galassi, conte-nos o que é a ABRAS e qual é o propósito e a finalidade dela?


A ABRAS é uma entidade de classe empresarial dinâmica e moderna, cujos propósitos são representar, defender, integrar, impulsionar e desenvolver o setor supermercadista brasileiro. Atuamos a partir da sede, em São Paulo, e por meio de nosso escritório em Brasília, que, no próximo dia 30 de novembro ganhará uma nova instalação, mais ampla e moderna, visando o fortalecimento da atuação da associação na capital federal. Contamos ainda com o apoio de 27 associações supermercadistas estaduais, sediadas nas 26 capitais e no Distrito Federal. O setor é pujante e responde por 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, abastecendo com qualidade e segurança os 28 milhões de consumidores que frequentam, diariamente, as mais de 91 mil lojas distribuídas em todo o território nacional. Vale
destacar que, embora o foco da associação seja os supermercados, também buscamos, enquanto entidade, atuar com responsabilidade social, defendendo os interesses e bem-estar do consumidor, visto que a nossa agenda de trabalho gera impactos em toda a cadeia nacional de abastecimento.


Como a entidade atua na prática, ou seja, qual é a sua efetividade nas esferas social, econômica e política?


Em Brasília, por exemplo, exercemos um sólido relacionamento institucional da classe supermercadista com os Poderes da República. Essa atuação já viabilizou diversas conquistas ao setor. Estou empenhado em fortalecer esse relacionamento e, desde que iniciei a minha gestão, mantenho uma constante agenda de reuniões com os ministérios e autoridades da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Também atuamos em diversas frentes, todas elas dedicadas a dar suporte às empresas supermercadistas no que se refere aos desafios inerentes à gestão e operação. Como exemplos, cito o nosso Comitê Jurídico e também o de Prevenção de Perdas e Desperdício de Alimentos, que buscam fomentar conhecimentos e boas práticas no enfrentamento desse grande desafio. Outra iniciativa admirável é o Programa de Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos, o Rama, dedicado à fiscalização da qualidade de frutas, legumes e verduras e fomentar boas práticas no campo, no que se refere ao uso de defensivos agrícolas. Hoje, 69 empresas supermercadistas participam do programa que, em 2020, rastreou um total de 2,4 milhões de toneladas
de alimentos.


Sua gestão à frente da Abras é para o período de 2021-2022. Quais as suas metas?


Elevar a qualificação dos empresários supermercadistas, de modo que estejam aptos a seguir acompanhando o dinamismo próprio do mercado de consumo. Reforçar, também, a responsabilidade social, ambiental e de governança das empresas do setor, que é predominantemente formado por negócios familiares. Além disso, colaborar com o reposicionamento estratégico do varejo alimentar brasileiro, principalmente diante dos desafios impostos pelo avanço tecnológico e dos novos hábitos e comportamentos dos consumidores. Criaremos ainda empresas de economia compartilhada – separadas da associação – com controle acionário e investimentos de empresários do setor supermercadista. Como exemplo, cito o marketplace e o hub de inovação para o varejo alimentar. Outro foco é a estruturação do Sindicato do Comércio de Supermercados e, do ponto de vista tático, encontrar caminhos para reduzir as taxas dos vouchers de alimentação que tanto afetam a sociedade.


Como o sr. avalia a atuação do setor supermercadista, de forma geral, em relação à pandemia?


Tivemos uma resposta excepcionalmente, pronta e profissional, das empresas do setor em todo o País durante a pandemia e, principalmente, dos mais de 3 milhões de trabalhadores que o segmento emprega, de forma direta e indireta. Sob a liderança da associação, foram implementados rigorosos protocolos de segurança sanitária, além
dos já impostos naturalmente à nossa atividade, a fim de garantir total segurança aos colaboradores e clientes. Fizemos também um grande esforço para preservar os trabalhadores com maior risco, mantivemos o efetivo de profissionais e realizamos um significativo volume de contratações para manter o nível de serviço ao atendimento da
população. Outro ponto, é que passamos a realizar reuniões semanais com lideranças supermercadistas visando o monitoramento e aperfeiçoamento dos protocolos.


De quais outras formas o setor ajudou a sociedade a lidar com a pandemia de covid-19?


O setor é e foi muito solidário, auxiliando as comunidades onde os supermercados estão inseridos. Entretanto, na segunda onda da pandemia, sentimos a necessidade
de ampliar o apoio, diante do cenário de fome em nosso País. Assim, criamos a campanha Doação Superessencial, em parceria com as 27 associações estaduais de supermercados, com o intuito de atender a população vulnerável. A campanha está em curso em todo o território nacional e com o apoio do Pacto Global da ONU, do Centro de Excelência Contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP – World Food Programme) da ONU e da ONG Ação da Cidadania. Também instituímos um sistema confiável para a confecção de cartões-alimentação, no valor R$ 100, destinados à população mais carente. Todos podem fazer sua doação (pelo site www.doacaosuperessencial.com.br). A campanha será encerrada na Convenção Abras, quando buscaremos alcançar a meta de R$ 10 milhões, que beneficiará 100 mil famílias. Na ocasião, será anunciada uma parceria com a ONG Amigos do Bem para o alcance desse objetivo.


O sr. concorda quando se aponta que o setor foi o que mais ganhou e vem ganhando neste período?


O setor exerce um importante papel social e, não à toa, é considerado por lei como uma atividade essencial. Somos o principal canal de abastecimento dos lares – com 85% de participação – e temos uma grande responsabilidade e contribuição na manutenção da segurança alimentar, o que envolve garantir a oferta e também a segurança do alimento. Durante a pandemia, os hábitos dos consumidores mudaram e o preparo de alimentos dentro dos domicílios aumentou. Nesse contexto, houve o esforço dos supermercados para o aperfeiçoamento de uma complexa logística, de modo a garantir as lojas abastecidas em um momento crítico para a população. Adotamos, inclusive, a postura de conscientizar a população para evitar a estocagem de alimentos. Essa postura firme transmitiu tranquilidade e a certeza de que as demandas seriam atendidas.


Quais as principais mudanças de comportamento de consumo verificadas pelo setor desde o início da pandemia?


A principal foi a veloz adoção do comércio eletrônico. Houve um boom das vendas eletrônicas e serviços de entrega. Após o anúncio do primeiro caso da covid-19 no Brasil, observamos um crescimento maior do que a média em relação aos novos consumidores do e-commerce brasileiro, ou seja, aqueles que realizaram pela primeira vez uma compra online. Dentre as categorias mais buscadas pela web, estão os itens de higiene, limpeza caseira, produtos para bebê e mercearia, que registraram uma alta significativa no período. Também foi pedido à população que apenas uma
pessoa por família fosse às compras nos supermercados e isso, de fato, ocorreu. Os consumidores, em geral, reduziram a frequência de idas aos pontos de venda, mas, em compensação, ampliaram o volume de itens por compra, além exigirem um atendimento mais rápido nas lojas. São comportamentos condizentes com a necessidade de distanciamento social recomendada para este período e em linha aos observados em outros países.


A Abras ganhou este ano uma identidade visual nova, cheia de significados. Pode explicar o que motivou a mudança?


A nossa identidade visual já estava completando 12 anos sem atualização e modificação, achamos por bem, num momento em que o varejo passa por tantas transformações, atualizar a nossa identidade visual e a marca da entidade, para que elas reflitam também a sua própria evolução. Tecnicamente falando, a nova marca traz o azul, que transmite segurança e confiabilidade, e o amarelo, que representa otimismo e dinamismo. Os sentidos de união e força da entidade compõem os traços da marca, que se unem formando o verde da esperança, que reflete o nosso
compromisso de impactar positivamente a sociedade com responsabilidade social, consciência ambiental e boa governança. A nova tipologia traduz em suas curvas a força inovadora de uma instituição em constante movimento, sem esquecer os mais de 50 anos de tradição, mas cientes de que o momento é de reinvenção e protagonismo.


A Convenção Abras acontecerá nos dias 20 e 21 deste mês, no Royal Palm Plaza, aqui em Campinas, e o conteúdo será voltado ao tema cuja palavra é nova, a Coopetição. Pode nos contar um pouco sobre isso?


Em sua 55ª edição da Convenção Abras, a entidade fez questão de trazer de volta este importante evento para Campinas e oferecer uma experiência fora das capitais. Sendo um verdadeiro farol do setor supermercadista, o evento contará com muito conteúdo, negócios e relacionamento. Costumamos reunir, entre 700 a 1 mil empresários e executivos. Porém, diante da pandemia, receberemos entre 300 a 400 convidados, garantindo distanciamento, proteção e higienização. Todos serão testados antes de acessar o local da convenção – que também será transmitida de forma virtual. O termo Coopetição, inspirado no livro de mesmo nome, o Coopetition, é um conceito que alia competição e a cooperação. Trata-se de um caminho pautado pelo equilíbrio entre a inerente competitividade que existe no setor e a crescente necessidade de colaboração. Contaremos com um time de palestrantes internacionais e também de expoentes do setor supermercadista brasileiro, como o empresário Abílio Diniz, e autoridades, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, o governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito de Campinas, Dário Saadi.
De carrinhos computadorizados a chefs virtuais, a tecnologia está cada vez mais presente na jornada de consumo.

O que já existe de mais tecnológico hoje em uso no Brasil e o que ainda está por vir?


Podemos dizer que estamos em plena transformação digital. No entanto, a maior transformação está ocorrendo nos canais de venda, relacionamento e atendimento aos clientes. A aceleração da maturidade digital do consumidor, a partir da alta penetração dos serviços móveis de celular e smartphones, impôs novas jornadas de compra, novos canais e modalidades de venda e distribuição, ampliando as alternativas de conexão do supermercado com o consumidor. Os marketplaces são a modalidade de venda eletrônica que mais cresce no mundo e no Brasil. Nesse sentido, estamos lançando o marketplace do setor, reunindo a força das nossas lojas físicas e do nosso relacionamento com os clientes, e ofereceremos serviços de aplicativos de delivery. Tudo isso impacta o perfil de profissionais que estão sendo
contratados, pois eles precisam ter conhecimento da área de tecnologia.


Qual o peso da região de Campinas dentro do universo dos supermercados?

Apesar da instabilidade gerada pela pandemia, não foram poucas as unidades de supermercados que abriram por aqui. O Estado de São Paulo representa mais de 30% do faturamento do setor supermercadista nacional e a Região Metropolitana de Campinas tem muita relevância nessa fatia. Afinal, é uma região populosa e mais bem localizada, sendo uma das primeiras do País a receber as empresas varejistas nacionais. Atualmente, a RMC está muito bem atendida por essas cadeias e também por muitas bandeiras regionais que, nos últimos meses, abriram diversas unidades e estão se preparando para abrir outras. Muitas também estão passando por reformas para melhorar o
atendimento aos clientes e, consequentemente, sua performance. Isso posiciona Campinas como uma das praças mais competitivas do País.


O que nos reserva o futuro? Para onde o setor caminha?


O futuro nos reserva a combinação de serviços online e offline, ou seja, compras na loja física e via internet. As novas gerações apontam para uma experiência digital cada vez maior. Nunca o conhecimento do consumidor foi tão importante e esse protagonismo será ainda mais vital no futuro. Também haverá cada vez mais empresas interessadas no aperfeiçoamento de sua gestão, adotando modelos sólidos de governança voltados à sustentabilidade de seus negócios. Veremos muito, ainda, o aperfeiçoamento de tradicionais soluções que fazem parte do dia a dia do varejo,
como o código de barras, que evoluirá para o modelo bidimensional, solução que reunirá informações fundamentais para indústria, varejo e consumidor em um único local. Essa simples mudança nas embalagens dos produtos trará muito mais segurança, transparência e diversos e consistentes benefícios para a operação varejista.


Para fechar esse bate-papo, que atividades de lazer ou hobby o sr. pratica, para além de suas funções executivas?


Realizo caminhadas diárias em meio à natureza, ocasião em que também respondo a mensagens e faço reuniões virtuais, unindo o útil ao agradável. Este foi um novo hábito adquirido na pandemia. Também gosto muito de vivenciar momentos de lazer e cultura com a minha família.

Fonte: Por Ana Carolina Martins, Correio Popular

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