O fim da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, em março deste ano, ampliou a discussão sobre concorrência, acesso e impactos econômicos em um mercado em rápida expansão. No Brasil, o uso de canetas emagrecedoras cresceu 88% em 2025, enquanto o setor movimentou cerca de R$ 10 bilhões no período. O avanço pressiona a indústria de alimentos, foodservice e o varejo, já que parte dos consumidores busca porções menores, mais qualidade nutricional e produtos com maior teor de proteína e fibras.
O novo comportamento ganha força em um país em que o excesso de peso atinge seis em cada dez brasileiros. Entre 2006 e 2024, o índice de obesidade cresceu 118%, de acordo com o Ministério da Saúde. Com esse avanço, os medicamentos deixam de ser uma discussão restrita à saúde e entram no radar de empresas de alimentos, bebidas e varejo, que passam a acompanhar um consumidor mais atento à composição, funcionalidade e densidade nutricional dos produtos.
O relatório Voz do Consumidor 2025, da PwC, mostra que 79% dos consumidores brasileiros dizem estar muito preocupados com alimentos ultraprocessados. A mesma pesquisa aponta que 64% dos brasileiros acreditam que as empresas poderiam contribuir para a saúde e o bem-estar oferecendo mais produtos voltados a necessidades específicas. Outros 58% defendem o aumento do valor nutricional dos produtos, enquanto 56% apontam a necessidade de mais opções com menor teor calórico.
Os dados ressaltam que a pressão não está apenas no volume consumido, mas na composição dos produtos oferecidos. O fim da patente da semaglutida pode acelerar esse movimento, de acordo com o portal Food Connection. Com a possível entrada de versões concorrentes e a ampliação gradual do acesso, empresas de alimentos, bebidas e suplementos devem observar com mais atenção um consumidor que tende a buscar porções menores, mais proteínas e fibras, menor teor de açúcar e gordura, além de produtos funcionais e convenientes.
Estudos internacionais reforçam o movimento
Uma pesquisa da Cornell University, publicada no Journal of Marketing Research, analisou dados reais de compra de cerca de 150 mil domicílios nos Estados Unidos e identificou que, em até seis meses após o início do uso de medicamentos GLP-1, os gastos com supermercado caíram, em média, 5,3%.
Entre as famílias de maior renda, a retração passou de 8%. O levantamento também apontou queda de cerca de 8% nos gastos com fast-food, cafeterias e restaurantes de serviço rápido. No entanto, houve crescimento em categorias como iogurte, frutas frescas, barras nutricionais e snacks de carne, reforçando que os impactos já podem ser vistos não apenas na redução do consumo, mas também na redistribuição das escolhas alimentares para produtos associados à saúde.