Por Renato Müller
O setor de alimentação fora do lar está passando por uma transformação estrutural profunda, marcada por margens de lucro cada vez mais apertadas, alta dos custos e uma redefinição do comportamento dos consumidores. Na abertura do National Restaurant Show 2026, principal evento de foodservice do mundo, neste fim de semana em Chicago, a gravidade do momento ficou clara.
“Mais de 40% dos restaurantes independentes não tiveram lucro no ano passado. Não é um sinal saudável para o setor”, alerta Kevin Bryla, Chief Marketing Officer da SpotOn. Ameaça para uns, possibilidade para outros: o momento representa uma janela de oportunidades para os supermercados ampliarem sua presença no foodservice.
Os americanos não pararam de consumir fora, mas estão fazendo isso com muito mais critério. “Os consumidores estão sendo muito mais intencionais em seus gastos, escolhendo lugares em que sabem que terão o melhor retorno pelo dinheiro investido”, explica David Henkes, Senior Principal da consultoria Technomic.
Isso não significa necessariamente comprar o mais barato. “Os consumidores têm um scorecard na cabeça: como está o sabor? Qual o custo? Qual o tamanho da porção? Quanto tempo é ganho? Tudo isso entra na conta e pode levar a mudanças de comportamento”, analisa Khara Mangiduyos, Cofundadora da rede Kalei’s Kitchenette.
Para os supermercados, essa compra baseada em uma equação de valor impulsiona uma expansão agressiva das seções de refeições prontas e das rotisserias. A oferta de pratos prontos de alta qualidade, saborosos, em porções generosas e a um custo final mais vantajoso atende aos critérios desse “scorecard”, atraindo consumidores que querem proteger o orçamento diário sem abrir mão da conveniência.
O varejo de alimentos está em uma posição privilegiada para absorver a demanda por conveniência, já que permitem que o cliente resolva duas necessidades em um único lugar: reabastecer a despensa doméstica e garantir o jantar pronto. “Os fatores que mais impactam a decisão de onde comer são a qualidade dos alimentos, a conveniência e a velocidade”, enumera David Henkes.
Na avaliação do especialista, os supermercados já comunicam bem os dois últimos fatores – o passo final é reforçar a percepção de qualidade, seja nas redes sociais (com vídeos que demonstrem o frescor e a crocância dos produtos), seja por meio de degustações e pela apresentação dos produtos no ponto de venda.