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Indústria brasileira troca volume por valor agregado

Primeiro semestre mostra retomada em lançamentos sob uma nova lógica: número maior de empresas inovando, porém com mais planejamento e valor agregado. No varejo alimentar, o destaque vai para itens indulgentes e com alto teor proteico

De Redação SuperHiper
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Por Giseli Cabrini

Pé no chão. Esse tem sido o comportamento da indústria brasileira diante de um cenário macroeconômico ainda pautado por juros altos e inflação, bem como um nível elevado de endividamento das famílias. Os fabricantes continuam a inovar, mas sob uma nova lógica: com mais consciência e planejamento, o que reflete um portfólio alinhado à demanda real do consumidor final, que está mais exigente. E voltado a itens indulgentes e de maior valor agregado e proteicos, especialmente em alimentos e bebidas.

Categorias como chocolates, leites, carnes e queijos têm ganhado destaque, assim como vinhos e cervejas. É o que mostra o Índice de Diversificação de Portfólio de Produtos, desenvolvido pela GS1 Brasil.

Além disso, o índice revela que mais indústrias passaram a diversificar seus produtos. Em contrapartida, o número de novos itens — que costumava ser o motor dos lançamentos tem perdido força.

“O primeiro semestre de 2026 demonstra que a renovação de portfólio continua sendo um importante instrumento de adaptação da indústria brasileira às transformações do mercado. Ao acompanhar simultaneamente empresas, produtos e características dos registros, o Índice GS1 Brasil de Diversificação de Portfólio de Produtos amplia a capacidade de compreender, de forma antecipada, como as estratégias empresariais começam a se materializar na economia real”, afirma a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da GS1 Brasil, Marina Pereira.

Índice GS1 Brasil: retomada de 3,4% revela lançamentos mais seletivos

Depois de recuar 3,9% em 2025, o Índice de Diversificação de Portfólio de Produtos voltou ao campo positivo no primeiro semestre de 2026, com alta de 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O indicador, que acompanha mensalmente o ritmo de renovação de portfólio da indústria de transformação brasileira a partir dos registros no Cadastro Nacional de Produtos, revela um recorte inédito: a indústria não está simplesmente lançando mais itens, está sendo mais seletiva sobre o que lança.

O dado, isoladamente, poderia sugerir uma retomada de fôlego semelhante à observada entre 2021 e 2023, quando o índice chegou a crescer mais de 20% em um único semestre. Mas a composição do resultado deste ano é diferente — e é justamente essa mudança de comportamento que chama atenção de quem acompanha o setor de alimentos e bebidas.

Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da GS1 Brasil, Marina Pereira. Foto: Divulgação/GS1 Brasil

Mais empresas inovando com menor volume de produtos

O índice é formado por dois componentes complementares: Fabricantes, que mede quantas empresas estão ampliando seus portfólios, e Mercadorias, que mede a variedade de itens registrados. Entre 2021 e 2024, o crescimento do indicador foi puxado principalmente pelo componente Mercadorias — ou seja, o motor da diversificação era o volume de novos produtos cadastrados.

Neste primeiro semestre, essa lógica se inverteu. O componente Mercadorias cresceu apenas 0,6%, enquanto o componente Fabricantes avançou 5,7%. Na prática, isso significa que mais empresas passaram a diversificar seus portfólios, mas cada uma delas lançando de forma mais comedida — um sinal de que a inovação está mais disseminada entre os fabricantes, porém mais seletiva na hora de colocar o produto na rua.

Para a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da GS1 Brasil, Marina Pereira, esse é o retrato de uma indústria com “o pé no chão”. Não há, segundo ela, um movimento superotimista de lançamentos em massa, mas sim uma correlação mais direta entre atividade industrial e intenção real de lançamento. É importante lembrar que o índice mede a primeira fase do ciclo de vida do produto — a ideação e a estruturação do portfólio —, o momento em que a intenção começa a se transformar em produto, ganhando identidade e sendo formalmente cadastrado.

Essa cautela também aparece no processo de desenvolvimento. O teste de novos produtos, segundo a leitura da GS1 Brasil, deixou de acontecer predominantemente na ponta — direto no mercado — e passou a ser feito com mais intensidade dentro das áreas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das próprias indústrias.

Alimentos e bebidas: foco em indulgência e teor proteico

Entre os 24 setores analisados pelo índice, 17 registraram crescimento no semestre. Bebidas avançou 14,7% e alimentos, 8,6% — desempenhos mais moderados que os de setores como fumo (61,6%) e químicos (27,6%), mas relevantes para o varejo alimentar, que é onde esses lançamentos de fato chegam à gôndola.

Mais do que o volume de novos registros, o que chama atenção é a leitura qualitativa feita pelo índice por meio de inteligência semântica aplicada às descrições dos produtos cadastrados. Nos setores de alimentos e bebidas, os termos mais recorrentes nos registros do primeiro semestre foram chocolate, leite, carne, queijo, pão e frango, no caso de alimentos, e vinho, cerveja, água e cachaça, entre as bebidas.

A recorrência desses termos revela uma indústria que está direcionando seus lançamentos para categorias associadas à indulgência e a produtos com maior valor proteico — e, por consequência, maior valor agregado. Ainda não aparecem entre os termos mais frequentes expressões como “zero álcool” ou “low carb”, o que sugere que essas tendências, embora presentes no debate do setor, ainda não se traduziram em volume relevante de registros de produtos. Já os sucos de frutas aparecem como destaque de avanço nos meses mais recentes do semestre, um movimento a ser observado nos próximos resultados.

No segmento de químicos, destaques para categorias de sabonete, xampu, hidratante e máscara, bem como de itens de perfumaria, por exemplo, splash e fragrância de lavanda.

Grandes empresas lideram inovação de portfólio no Brasil

O porte da empresa também faz diferença na intensidade da diversificação. As empresas de maior porte (fora as classificadas como pequenas e microempresas) lideraram o avanço, com crescimento de 11,9% no semestre — ante alta de apenas 0,8% nas pequenas empresas e recuo de 2,3% nas microempresas. O padrão sugere que ampliar e renovar portfólio de forma consistente exige capacidade de investimento em planejamento e desenvolvimento que nem todo negócio consegue sustentar.

Na leitura regional, quatro das cinco regiões do País avançaram no semestre. O Norte teve o desempenho mais expressivo (+40,7%, ainda que a partir de uma base industrial menor), seguido por Centro-Oeste (+6,1%), Sudeste (+4,7%) e Sul (+2,1%). O Nordeste foi a única região em queda, com recuo de 5,7% — um resultado que, segundo a GS1 Brasil, tende a refletir a vocação do próprio parque fabril da região, com menos fabricantes registrando novas mercadorias no período.

Perspectivas para o 2º semestre: sazonalidade, economia global e eleições

Historicamente, o índice segue um padrão sazonal: retomada no primeiro trimestre, consolidação no segundo, maior intensidade no terceiro e desaceleração no quarto — período em que a indústria tende a concentrar esforços na execução comercial de datas como Black Friday e Natal, e não no lançamento de novos itens. Com base nesse ciclo, a expectativa é de que o índice ganhe força no terceiro trimestre de 2026.

Esse movimento, porém, deve ser observado à luz de um contexto externo mais instável do que o habitual. O primeiro semestre de 2026 combinou a realização da Copa do Mundo FIFA 2026, a entrada em vigor, em maio, do acordo entre o Brasil e a União Europeia (UE), que abre caminho para exportação mesmo em meio à influência de tarifas. Na direção oposta, um pacote de tarifas que voltou a fechar portas entre blocos econômicos.

Some-se a isso a questão das guerras no cenário internacional pressionando diretamente o preço do petróleo e fomentando mais instabilidade de mercado, fatores que tendem a se refletir diretamente na atividade industrial e, por consequência, no próprio índice de diversificação.

Para a indústria, o resultado é um crescimento mais conservador, de empresários atentos a onde estão as oportunidades e a como se adaptar a elas — inclusive no ano em que o calendário eleitoral de 2026 é apenas mais um entre os fatores que podem, ou não, aquecer o mercado no segundo semestre.

O que é o Índice de Diversificação de Portfólio de Produtos da GS1 Brasil?

O indicador é uma ferramenta mensal desenvolvida pela GS1 Brasil a partir do Cadastro Nacional de Produtos, base com mais de 90 milhões de itens cadastrados por empresas no país. Diferente de pesquisas de intenção, o índice mede execuções reais de registro de produtos, o que permite antecipar tendências de lançamento antes mesmo de o item chegar ao mercado.

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