Por Edevaldo Figueiredo
O combate às perdas e ao desperdício de alimentos depende de ações coordenadas em diferentes etapas da cadeia, que vão da produção agropecuária ao varejo e à redistribuição de excedentes. Esse foi o eixo central do evento “Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos: inovações tecnológicas e sociais para transformação dos sistemas alimentares”, realizado nesta quinta-feira, 29, no auditório da Associação Paulista de Supermercados (Apas), em São Paulo.
Promovido no âmbito da II Estratégia Intersetorial para a Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos (Estratégia PDA), o encontro debateu o uso de tecnologias pós-colheita, a conexão entre varejo e bancos de alimentos e a aplicação de inteligência artificial na gestão de frutas, legumes e verduras (FLV).
Tecnologia para reduzir perdas no campo e no varejo
No primeiro painel, dedicado às tecnologias pós-colheita, Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa, destacou o papel estratégico do varejo na conexão com produtores e na disseminação de boas práticas. Para ele, a aproximação entre pesquisa agropecuária e supermercadistas pode ampliar a oferta de frutas e hortaliças de qualidade e reduzir desperdícios.
“A inovação só acontece no campo do globo, ao longo da cadeia produtiva de alimentos, com os produtores rurais, varejistas, por exemplo, conseguem adotar boas práticas ou implementar tecnologias que impactam positivamente na qualidade dos alimentos ofertados”, afirmou.
Suzy Yoshimura, diretora sênior de Sustentabilidade do Grupo Carrefour Brasil, apresentou a chamada “jornada da autonomia”, iniciativa voltada à evolução das práticas dos fornecedores, especialmente de FLV. Segundo ela, o objetivo é estimular impactos positivos em vez de apenas estabelecer requisitos mínimos para a manutenção da relação comercial.
“Essa jornada surge como a gente, de repente, como um grande varejista, que acaba se conectando a grandes atores da própria sociedade, seja sociedade civil, seja governo, seja instituições de pesquisas, universidades, pode ajudar nessa ponte”, disse.
A executiva também ressaltou que o combate ao desperdício precisa considerar o acesso do consumidor. “O nosso maior desafio é colocar essa acessibilidade a produtos socialmente e ambientalmente responsáveis, de uma maneira que eles sejam acessíveis”, afirmou.
Marcos David Ferreira, pesquisador da Embrapa, destacou a dimensão alcançada pelo curso de tecnologia pós-colheita da instituição, que passou ao formato digital durante a pandemia e já soma cerca de 38 mil inscritos, alcançando todos os estados brasileiros e 21 países.
“Quando a gente transfere uma tecnologia direto para aqueles fornecedores, você muda muito a cadeia, você também entende as dores, tanto da pré-colheita, as dores do campo, as dores do produtor e do varejo”, afirmou.
Ferreira também citou tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, como a emulsão de cera de carnaúba aplicada na conservação de frutas. Segundo ele, a solução, desenvolvida por meio de parceria público privada, é utilizada em grande parte da manga exportada pelo Nordeste.
Bancos de alimentos buscam ampliar conexão com supermercados
O segundo painel abordou a relação entre varejo e bancos de alimentos. Alcione Silva, engenheira de alimentos da Connecting Food, apresentou dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social sobre a atuação desses equipamentos. Em 2025, os bancos de alimentos movimentaram quase 70 mil toneladas de alimentos, sendo cerca de 54% provenientes de desperdícios.
João Perez, secretário de Segurança Alimentar e Sustentabilidade de Osasco, defendeu que os bancos sejam compreendidos como equipamentos de segurança alimentar, e não apenas como locais de descarte. “O Banco de Alimentos é um grande laboratório de políticas de segurança alimentar”, afirmou. Segundo Perez, o Banco de Alimentos de Osasco coletou cerca de 1.400 toneladas em 2025 e atende milhares de famílias semanalmente.
Entre os desafios apontados pelo secretário estão a ampliação do conhecimento do setor privado sobre os bancos, a segurança jurídica das doações e a logística de coleta e distribuição.
Manuel Lopes, C-Level da ONG Banco de Alimentos, destacou a dimensão logística da operação. A organização atua há 28 anos e, em 2025, captou quase 1.500 toneladas de alimentos. “O Banco de Alimentos atua diretamente coletando o alimento onde está sobrando, dentro do varejo, principalmente, entregando para onde está faltando”, disse.
Lopes também defendeu maior uso de tecnologia, recursos financeiros e parcerias para ampliar a atuação dos bancos.
Denise Meira, coordenadora do Programa Sesc Mesa Brasil São Paulo, ressaltou a necessidade de treinamento das equipes dos supermercados. O programa possui 23 unidades no estado e opera com 58 veículos. “O trabalho de sensibilização e, claro, de treinar, de orientar para essa seleção é bem importante”, afirmou. Para ela, transparência, rastreabilidade e retorno sobre o impacto das doações também são elementos fundamentais para fortalecer a relação com o varejo.
Pela perspectiva supermercadista, Jocy Astolphi, CEO da Rede Plus de Supermercados, apontou que a doação envolve uma operação complexa, que passa por prevenção de perdas, treinamento e definição do destino dos produtos. “O maior desafio é a gente conseguir treinar essas equipes, a gente ter a maturidade de olhar para isso como uma questão social e conseguir com os bancos de alimento”, afirmou. Ela também destacou a dificuldade logística para produtos perecíveis, que exigem retirada rápida das lojas.
Inteligência artificial entra na gestão de FLV
No terceiro painel, a discussão avançou para o uso da inteligência artificial e para alternativas de redução do desperdício de frutas, legumes e verduras.
Lúcio Vicente, diretor executivo do Instituto Akatu, chamou atenção para a necessidade de aproximar tecnologia, comportamento e realidade operacional. Segundo ele, uma pesquisa realizada pelo instituto mostrou que o desperdício de alimentos foi citado por apenas 1% dos mais de 3 mil entrevistados como um dos temas mais críticos para a agenda do Brasil.
Álvaro Torquato, CEO do Supermercado Alvorada, defendeu maior diversidade de produtos nas bancas de FLV, inclusive itens fora dos padrões estéticos tradicionais. “A tecnologia vem entrando ali depois, começa com processos e com escolhas de estratégia”, afirmou. Para ele, a inteligência artificial pode contribuir posteriormente para sugestão de pedidos, definição de preços e gestão do sortimento, desde que haja dados e processos estruturados.
Ricardo Salazar, diretor-geral da Gander Brasil, destacou a evolução da análise preditiva aplicada ao varejo. “Essa parte da análise preditiva foi a que mais evoluiu no varejo e onde mais está sendo aplicada”, afirmou, citando aplicações em compras, pedidos, abastecimento e gestão de históricos.
Marco Perlman, CEO e cofundador da Aravita, apontou uma mudança na velocidade de tomada de decisão proporcionada pelas novas ferramentas de IA. “Se você pode tomar N decisões pequenas e rapidamente, e, como o Ricardo falou, implementá-las rapidamente, você tem um jogo que pode ser muito diferente”, disse.
Segundo Perlman, a aplicação da IA em FLV pode permitir que análises que antes demoravam tanto que deixavam de ser realizadas passem a gerar ações rápidas. “No FLV é aquela análise que teria demorado, portanto, você não teria feito, porque até você fazer a análise, o cachorro já foi para o lixo, passou a ser feita, passou a ser rastreável e passou a possibilitar ação efetiva e imediata”, afirmou.
ABRAS destaca avanço na medição das perdas
No fechamento do evento, Marcio Milan, vice-presidente institucional e administrativo da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), ressaltou a evolução do setor na mensuração das perdas e na transformação do tema em uma agenda de eficiência operacional.
Segundo Milan, o levantamento da entidade permite analisar perdas por canal de distribuição e ampliar a visão de uma loja ou empresa para diferentes regiões e para o conjunto do mercado brasileiro. Ele afirmou que, entre 2024 e 2025, a medição apontou uma redução de R$ 500 milhões na quebra operacional. “Quando a gente trata um assunto com transparência como nós estamos fazendo aqui, divulgando, embora muitas vezes parece que o supermercado está no final da cadeia, ele consegue transmitir para a população em função do grande volume de produtos que são expostos nos supermercados, essa é a impressão do desperdício”, afirmou.
Milan também destacou o papel do supermercado na comunicação com o consumidor. Segundo ele, cerca de 30 milhões de consumidores frequentam diariamente os supermercados, o que cria uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre o tema.
Na avaliação apresentada no encerramento, os dados também mostram diferenças na adoção de doações conforme o porte das empresas. Entre os supermercados com faturamento superior a R$ 1 bilhão por ano, 80% realizam doações regulares, enquanto entre empresas com faturamento de até R$ 100 milhões a proporção é de aproximadamente metade.
Para Milan, a redução das perdas depende da mobilização de diferentes agentes. “A gente tem um trabalho longo para fazer e depende muito desse trabalho que nós estamos fazendo aqui, que é a mobilização de todos os elos da cadeia com esse objetivo aí de reduzir perdas e desperdício de alimentos.”




