Por Giseli Cabrini
A expressão “beba com moderação” deixou de ser apenas uma frase de responsabilidade social nas embalagens de fabricantes para se tornar a mentalidade do novo consumidor. Essa mudança de comportamento transforma diretamente o varejo alimentar e a indústria, exigindo novas estratégias para o mix de produtos, a exposição nas gôndolas dos supermercados e a inovação no portfólio dos fabricantes.
O movimento “zero álcool”: de tendência a mercado consolidado
O mercado de bebidas que aposta na redução ou ausência de álcool vive um amadurecimento acelerado no Brasil e no mundo.
“O zero álcool deixou de ser tendência para virar um movimento de mercado consolidado. No Brasil, a expectativa é de um crescimento de cerca de 10% até 2028, segundo a Euromonitor, bem acima da média do setor de bebidas”, explica a gerente de marketing da CRS Brands, Eloá Barbi.
Engana-se quem pensa que essa é uma exclusividade dos consumidores mais jovens. Pesquisas recentes apontam que três a cada quatro consumidores, independentemente da geração, reduziram o consumo de bebidas alcoólicas no último semestre.
Os três pilares da mudança de hábito
Existem três motivações principais por trás desse comportamento:
- Busca por bem-estar: a consolidação da cultura do “wellness”.
- Socialização sem álcool: novas gerações que desejam participar de eventos sociais sem necessariamente consumir bebidas alcoólicas.
- Fatores culturais: motivações religiosas, estilo de vida e preferências estritamente pessoais.
Nessa direção, o conceito de wellness se tornou um dos vetores mais consistentes de crescimento da indústria. Como reflexo, as bebidas funcionais e “better-for-you” — aquelas que entregam benefícios que vão além do sabor — são as categorias que mais avançam no setor supermercadista.
O desafio do varejo: como expor bebidas não alcoólicas no PDV?
A evolução das bebidas zero álcool já é visível no ponto de venda, mas o varejo ainda enfrenta desafios estruturais de organização física. “Algumas redes já desenvolvem espaços dedicados ao zero álcool, o que ajuda muito na educação do consumidor. Mas ainda há bastante espaço para evoluir, principalmente no autosserviço e no atacarejo”, pondera Eloá.
A executiva destaca uma falha comum na exposição atual. “Hoje, na maioria das lojas do autosserviço e do atacarejo, esses produtos ficam pulverizados: espumante sem álcool com os vinhos, cerveja sem álcool com as cervejas. O consumidor que está buscando opções zero álcool muitas vezes não as encontra de forma clara.”
Expansão geográfica e cultural
Embora a demanda por bebidas não alcoólicas seja mais forte em grandes centros urbanos e capitais — com destaque para São Paulo, que dita as tendências nacionais —, o movimento já se espalha por outras regiões do país e ganha força no mercado internacional.
“Na República Dominicana, por exemplo, espumantes não alcoólicos já têm participação relevante no nosso portfólio. E enxergamos uma janela importante de oportunidade em mercados com restrições culturais ao álcool, como o muçulmano”, detalha a executiva.
Visão de futuro
No ano em que celebra seu centenário, a CRS Brands enxerga nessa transformação o caminho para os próximos anos de operação. “Nosso planejamento de longo prazo já considera essa transformação. O objetivo é ampliar progressivamente a presença das bebidas não alcoólicas no portfólio da companhia até o final da década, o que impacta diretamente nossa agenda de inovação e a forma como ocupamos o ponto de venda”, afirma Eloá.
A área de inovação da empresa atua hoje em duas frentes estratégicas: bebidas indulgentes sem álcool (pensadas como alternativas para ocasiões tradicionalmente associadas ao álcool) e produtos wellness (conectados diretamente ao universo funcional e de bem-estar).
Dados globais: o avanço da “grande moderação”
Os dados do novo estudo Kantar BrandZ chancelam essa mudança estrutural. O levantamento revela que as 20 marcas de bebidas alcoólicas mais valiosas do mundo somam US$ 194 bilhões — o que representa uma queda de 7% no valor total da categoria em relação ao ano anterior.
Essa retração reflete o avanço da chamada “grande moderação”, caracterizada pela redução da frequência de consumo, especialmente na América do Norte e na Europa:
- Estados Unidos: apenas 54% dos adultos declararam consumir álcool recentemente (o menor índice já registrado).
- Alemanha: mercados tradicionais registram retração consistente nas vendas de cerveja.
Menos, mas melhor: o caminho da “premiumização” e inovação
Apesar da retração no volume, o cenário não significa estagnação. A lógica dominante do mercado passou a ser “menos, mas melhor”, impulsionando marcas premium e abrindo espaço para o portfólio low/no alcohol (baixo ou zero teor alcoólico).
O crescimento futuro do setor depende diretamente da capacidade de inovação e adaptação a novos contextos. As marcas de cerveja, por exemplo, têm se destacado ao ampliar a presença em momentos que vão do relaxamento individual a ambientes de esportes e bem-estar, investindo pesado no sabor das versões zero.