O Índice de Ruptura da Neogrid, que mede a falta de produtos nas gôndolas dos supermercados brasileiros, registrou 10,8% em julho de 2026 – o menor nível do indicador geral nos últimos 12 meses, com uma queda de 0,7 ponto percentual (p.p.) em relação a junho, quando marcou 11,5%. A redução foi acompanhada pela maior parte das categorias básicas monitoradas, em itens como ovos, leite UHT, café, arroz e feijão.
O resultado de julho ocorre em um cenário de consumo ainda pressionado. A prévia da inflação oficial, medida pelo IBGE (IPCA-15), acelerou 0,06% no mês e acumula 4,5% em 12 meses. Ao mesmo tempo, o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) aponta uma queda real de 1,4% no faturamento do varejo em julho, na comparação com o mesmo mês de 2025. Foi o pior desempenho para julho desde 2020, em um contexto no qual o setor não experimenta um crescimento real desde maio de 2025.
“A redução na ruptura evidencia uma recomposição importante da cadeia de abastecimento com o varejo aprimorando a previsão de demanda e a indústria respondendo com mais agilidade às mudanças no comportamento de compra”, analisa Robson Munhoz, Chief Relationship Strategist da Neogrid. “Com as vendas reais em queda e o orçamento familiar pressionado pela inflação acumulada, a maior disponibilidade de produtos nas gôndolas reflete um ritmo de compras mais cauteloso que diminui a velocidade de giro dos estoques.”

Ruptura das categorias que mais se destacaram em julho de 2026 no Brasil:
- Papel higiênico: de 14,1% para 15,9% (+1,8 p.p.);
- Ovos: de 27,8% para 22,4% (-5,4 p.p.);
- Leite UHT: de 13,8% para 11,4% (-2,4 p.p.);
- Café em pó e em grãos: de 9,4% para 7,4% (-2,0 p.p.);
- Arroz: de 11,0% para 9,5% (-1,5 p.p.);
- Açúcar: de 9,4% para 8,5% (-0,9 p.p.);
- Feijão: de 8,3% para 8,1% (-0,2 p.p.).
Ovos de aves
A ruptura na categoria de ovos recuou de 27,8% em junho para 22,4% em julho (-5,4 p.p.), mas o item continua entre os mais afetados pela indisponibilidade nas gôndolas. A recuperação acompanha a dinâmica do setor produtivo. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP) indicam uma combinação de estoques elevados nas granjas e um consumo equilibrado durante o período de férias escolares.
“Esse excedente de produção virou uma oportunidade para o varejo. Com a necessidade das granjas de acelerar o escoamento, o varejista teve maior poder de barganha para negociar. Isso destravou o fluxo de reposição contínua nas lojas, garantindo algumas prateleiras mais cheias, e permitiu repassar parte dessa economia para o consumidor na ponta final”, explica Munhoz.

O movimento também chegou aos preços. O valor médio da embalagem com seis unidades caiu de R$ 7,03 em junho para R$ 6,80 em julho. Nas embalagens maiores, a dúzia passou de R$ 11,53 para R$ 11,31; as cartelas com 20 unidades recuaram de R$ 15,57 para R$ 15,03; e as bandejas com 30 ovos baixaram de R$ 20,77 para R$ 19,94 no mesmo intervalo.
Variação de preço dos ovos:

Leite UHT
A ruptura do leite retrocedeu 2,4 p.p. em julho, recuando de 13,8% em junho para 11,4%. Foi o terceiro mês consecutivo de retração do indicador, que vem se recuperando gradualmente após atingir o pico histórico de 20,7% em abril. Apesar da melhora, o resultado ainda está acima do patamar verificado no início do ano, de 8,8%.
Mesmo com a queda na ruptura, os preços seguiram na direção oposta. O valor médio do UHT integral subiu de R$ 6,08 em junho para R$ 6,20 em julho, enquanto o semidesnatado passou de R$ 6,26 para R$ 6,42. O desnatado saltou de R$ 6,19 para R$ 6,25, e a versão sem lactose foi de R$ 7,55 para R$ 7,61.
A alta sinaliza uma pressão acumulada na origem. Dados do CEPEA-Esalq/USP mostram que o leite cru captado por laticínios encerrou o primeiro semestre com alta acumulada de 33,1%, impulsionado pela forte concorrência pela matéria-prima entre os laticínios e por um ritmo de captação no ano 11,4% inferior ao período anterior.

Variação de preço do leite:

Café em pó e em grãos
A ruptura do café recuou 2 p.p. em julho, passando de 9,4% para 7,4%. Nos preços, houve estabilidade, com leve viés de baixa. O valor médio do quilo do café em pó encolheu de R$ 69,47 para R$ 68,49, enquanto o café em grãos variou de R$ 127,42 para R$ 127,02.

Variação de preço do café:

Arroz
A indisponibilidade do arroz recuou 1,5 p.p., de 11% em junho para 9,5% em julho – menor patamar registrado em 2026. O resultado ocorre após um primeiro semestre marcado por oscilações, que mantiveram a média em 11,25%.
Os preços médios por quilo apresentaram comportamentos distintos. O arroz branco caiu de R$ 4,82 para R$ 4,80, enquanto o integral subiu de R$ 6,76 para R$ 6,80 e o parboilizado passou de R$ 4,62 para R$ 4,64.

Variação de preço do arroz:

Açúcar
A ruptura do açúcar caiu de 9,4% em junho para 8,5% em julho (-0,9 p.p.), no segundo mês consecutivo de retração após atingir o pico do ano em maio, de 10,4%. Nas gôndolas, os preços médios do quilo recuaram em todas as versões: o açúcar cristal cedeu de R$ 3,66 para R$ 3,63; o refinado, de R$ 4,13 para R$ 4,03; e o mascavo, de R$ 18,90 para R$ 18,75.

Variação de preço do açúcar:

Feijão
O índice de ruptura do feijão permaneceu praticamente estável, com redução de 0,2 p.p., de 8,3% em junho para 8,1% em julho. Entre os preços, o comportamento variou conforme o tipo de grão: o feijão preto subiu de R$ 7,03 para R$ 7,19, enquanto o carioca recuou de R$ 9,64 para R$ 9,59 e o vermelho caiu de R$ 12,61 para R$ 12,23.

Variação de preço do feijão:

Papel higiênico
Na contramão das demais categorias destacadas, o papel higiênico reportou um incremento de 1,8 p.p. na ruptura, passando de 14,1% em junho para 15,9% em julho. O avanço está relacionado à menor disponibilidade de estoques. Segundo análise do Banco do Brasil, embora a oferta pontual de celulose de fibra longa tenha aumentado no mês, o volume acumulado global nos primeiros cinco meses de 2026 ainda registra retração de 3,7% frente ao mesmo período do ano anterior.

Em linha com o cenário de oferta mais restrita, os dados da Neogrid revelam alta nos preços médios de todas as opções. A embalagem de folha simples passou de R$ 10,82 para R$ 10,85; a de folha dupla, de R$ 18,34 para R$ 18,42; e a de folha tripla, de R$ 23,22 para R$ 23,39.
Variação de preço do papel higiênico:

O que é ruptura?
Ruptura é um indicador que mostra a porcentagem de itens em falta em relação ao total de itens de uma loja considerando o catálogo total de produtos. Por exemplo: se um varejo vende 10 marcas de água mineral de 500 ml e uma delas está sem estoque, a ruptura desse produto é de 10%. Calculado com base no mix de cada loja, o índice não considera o histórico de vendas e independe da demanda.
Outro exemplo de ruptura pode ser observado quando o arroz parboilizado deixa de estar disponível no estoque da loja e outros tipos, como o integral, agulhinha ou arbóreo, continuam disponíveis. Em todos os casos, o termo “estoque” considera todo o espaço físico do varejo, incluindo a gôndola e o local de armazenagem para produtos ainda não disponíveis na prateleira.