Por Giseli Cabrini
O inverno nem terminou, mas o efeito de um fenômeno climático que promete ganhar mais influência no Brasil durante a primavera e o verão já acende o sinal amarelo para o varejo alimentar.
O El Niño ganhou força no último mês e tem agora 81% de chance de atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro, segundo nova projeção divulgada na quinta-feira (9 de julho) pelo Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, vinculado à agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA). Caso o cenário se confirme, o episódio pode entrar para a lista dos mais intensos já registrados desde o início das medições modernas, em 1950. O órgão também estima 97% de chance de o fenômeno persistir até o início da primavera de 2027 no hemisfério norte.
O evento climático promete afetar toda a cadeia nacional de distribuição: quem produz, quem transporta e quem vende. Na avaliação da Climatempo e de empresas da cadeia do frio, quanto antes o supermercadista se antecipar, melhor. Portanto, monitoramento contínuo, adoção sistemática de inteligência climática e ações preventivas envolvendo toda a estrutura de frio nas lojas e nos centros de distribuição (CD) já devem estar no radar do setor.
Caracterizado pelo aquecimento acima do esperado das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño altera a circulação atmosférica global e tende a modificar a distribuição das chuvas, intensificar episódios de calor e elevar o risco de ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do País.
O que é o Super El Niño e quais os impactos no Brasil?
“O principal diferencial do El Niño em 2026 é a intensidade projetada para o fenômeno. Os modelos climáticos mais recentes indicam um aquecimento expressivo das águas do Pacífico Equatorial, com tendência de um evento de forte intensidade, e que costumam provocar alterações climáticas mais significativas em diversas regiões do Brasil”, explica o meteorologista e executivo comercial da Climatempo, Lucas Carvalho.
De forma geral, o padrão esperado é:
- Norte e parte do Nordeste: tendência de redução das chuvas, favorecendo períodos de estiagem
- Sul: maior probabilidade de chuva acima da média, aumentando o risco de eventos hidrológicos extremos em alguns períodos
- Sudeste: comportamento mais próximo da normalidade em boa parte da região, embora ocorram variações espaciais e temporais
- Centro-Oeste: variação de impactos ao longo do desenvolvimento do fenômeno, mas as temperaturas tendem a permanecer elevadas
Segundo Carvalho, em relação à temperatura, a expectativa é de valores acima da média em praticamente todo o Brasil, com exceção da faixa mais ao sul do Rio Grande do Sul, onde esse sinal tende a ser menos pronunciado. “Temperaturas mais elevadas normalmente estimulam o consumo de produtos voltados ao conforto térmico, como ventiladores, aparelhos de ar-condicionado e refrigeradores, além de influenciar o consumo de diversas categorias de alimentos e bebidas.”
Outro ponto importante é a logística. A tendência de estiagem na Região Norte pode reduzir os níveis dos rios utilizados para transporte de cargas, dificultando o escoamento de mercadorias e impactando prazos e custos logísticos.
Além disso, o El Niño pode afetar importantes safras brasileiras. “Alterações na produção podem refletir na disponibilidade e nos preços de alimentos, especialmente dos produtos perecíveis, exigindo maior planejamento por parte do varejo”, alerta o meteorologista e executivo comercial da Climatempo.
Portanto, na avaliação dele, o primeiro passo que o varejo alimentar deve adotar é compreender como o fenômeno pode impactar especificamente a operação da empresa, uma vez que os efeitos variam conforme localização, cadeia logística e tipo de negócio. “A preparação começa pela identificação dos riscos climáticos mais relevantes para cada operação. Empresas localizadas em áreas sujeitas a chuvas intensas, alagamentos ou interrupções no fornecimento de energia precisam de um planejamento preventivo baseado em informações meteorológicas confiáveis”, destaca.
Ainda de acordo com Carvalho, a Climatempo atua justamente nessa tradução do risco climático para a realidade operacional de cada cliente, por meio de reuniões executivas, mentorias com especialistas em meteorologia e climatologia e da plataforma SMAC, que monitora condições meteorológicas e envia alertas para apoiar a tomada de decisão. “Antecipar riscos permite planejar estoques, ajustar operações logísticas, proteger ativos e reduzir impactos decorrentes de eventos meteorológicos extremos.”
Cadeia do frio no varejo: a importância da manutenção preventiva
Segundo as empresas da cadeia do frio, a antecipação por parte do varejo alimentar é fundamental. “Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Com o El Niño já instalado e tendendo a se intensificar ao longo de 2026, o varejo alimentar entra num período de mais pressão sobre refrigeração, climatização e consumo de energia, justamente as estruturas das quais a operação mais depende. Por isso o recado é simples: a hora de se preparar não é quando o termômetro sobe, é antes”, afirma o CEO da Vulp Air, Mateus Orsini.
O executivo adverte que antecipar a manutenção dos equipamentos mais críticos antes do pico, em vez de esperar a próxima parada, é fundamental para evitar falhas e gastos. É muito importante que a manutenção deixe de ser reativa, ou seja, feita somente depois que o equipamento para. “É a pior hora para descobrir um problema. É importante definir rotinas de acompanhamento e gatilhos que avisem antes da falha. E, por fim, tratar temperatura de loja e de CD como indicador acompanhado, não como reclamação pontual.”
Orsini acrescenta que é essencial tratar a climatização como parte da operação que precisa de manutenção planejada e acompanhamento, do mesmo jeito que se cuida do estoque ou da frota.
A diretora comercial de Refrigeração da Elgin, Priscila Baioco, concorda. Para ela, a cadeia do frio é uma parte estratégica da operação, não apenas uma linha de custo. “Os produtos frescos e refrigerados são os que mais sofrem com perdas. Segundo a 25ª Pesquisa de Eficiência Operacional da ABRAS, o índice de ineficiência chega a 4,73% em frutas, legumes e verduras e a 2,74% no açougue, categorias muito sensíveis à variação de temperatura. Em um ano de El Niño, com ondas de calor mais frequentes, essa vulnerabilidade se acentua.”
Por isso, o que o varejista deveria colocar no radar agora, antes do pico de calor previsto para a primavera e o verão, é a revisão preventiva de toda a estrutura de frio: antecipar manutenção, checar a vedação de câmaras e expositores e garantir que os sistemas estejam dimensionados para operar em temperatura ambiente mais alta. “Em uma onda de calor, uma falha de refrigeração deixa de ser um problema de manutenção e vira um problema de abastecimento e de segurança alimentar”, ressalta a executiva da Elgin.
Plano de ação: como preparar supermercados para o calor extremo
Confira a seguir dicas das empresas da cadeia do frio sobre como se preparar e principais pontos de atenção:
- Lojas físicas
O calor interfere diretamente na experiência de quem compra. Ambiente desconfortável significa menos tempo dentro da loja e mais pressão sobre os equipamentos que conservam alimentos e bebidas.
Antes dos meses mais críticos, vale revisar a condição dos sistemas, conferir se a capacidade instalada ainda dá conta do movimento atual da loja e olhar de perto o desempenho dos equipamentos mais exigidos. O ponto de atenção começa na unidade condensadora, responsável por dissipar o calor. Se ela está exposta ao sol, mal ventilada ou com o condensador sujo, o rendimento cai justamente quando a demanda é maior — mantê-la limpa, ventilada e protegida do calor direto já preserva eficiência.
- Expositores
Trocar balcões abertos por modelos com portas de vidro reduz de forma expressiva a carga térmica e o consumo, porque o frio deixa de escapar para o corredor.
Também é essencial não negligenciar a manutenção preventiva: sistemas mal ajustados ou obsoletos chegam a elevar o consumo de energia em até 20%, segundo o Procel, e o esforço excessivo aumenta o risco de falhas críticas, como a queima do compressor, que é o coração do sistema. Uma falha como essa implica custo de reposição, paralisação da operação e perda de produtos.
- Centros de distribuição
O desafio costuma ser maior. Muitos CDs brasileiros ainda operam sem climatização adequada ou com controle térmico limitado. No calor extremo, isso pesa nas condições de trabalho das equipes, acelera o desgaste dos equipamentos, eleva a conta de energia e, em algumas operações, pode afetar a qualidade do que está armazenado.
A lógica é a mesma em escala maior: isolamento térmico das câmaras, vedação de portas e monitoramento remoto da temperatura, que permite identificar uma variação antes que ela comprometa a carga. Num CD, uma oscilação não detectada a tempo pode significar a perda de um lote inteiro.
Eficiência energética no varejo: como reduzir a conta de luz no verão
A refrigeração costuma ser o maior item da conta de energia de um supermercado. Em lojas de médio porte, os equipamentos de refrigeração podem representar até 50% da conta, e, somando o ar-condicionado, esse peso chega a 60%, segundo o Procel e a Abrava. Esse custo aumenta nos períodos de calor, porque os equipamentos ficam mais tempo ligados para dar conta da carga térmica extra.
A boa notícia é que grande parte desse consumo é gerenciável. Só a substituição de refrigeradores comerciais antigos por modelos mais eficientes pode reduzir em mais de 40% o consumo da operação, de acordo com o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) e a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava). “Tecnologias como compressores com inverter, motores eletrônicos mais eficientes, iluminação em LED nos expositores e o uso de portas nos balcões ajudam a segurar a conta, e o monitoramento contínuo identifica desperdícios que passam despercebidos. Em um cenário de El Niño, com mais demanda por energia e pressão sobre o sistema elétrico, investir em eficiência é também uma forma de reduzir a exposição da operação a oscilações e a aumentos de tarifa”, detalha Priscila.
O CEO da Vulp ressalta que, num cenário de calor mais intenso e tarifas pressionadas, eficiência energética deixa de ser só corte de custo e vira questão de competitividade. “Em muitas operações ainda dá para ganhar eficiência só com monitoramento, automação e ajuste de funcionamento dos equipamentos. O nosso modelo é alinhado a isso: como cuidamos da infraestrutura ao longo de todo o contrato, temos interesse direto em manter tudo rodando da forma mais eficiente possível. Quanto menor o desperdício, melhor para o cliente.”