Artigo por Ariane Bete
Recentemente participei de uma imersão na China ao lado de executivos brasileiros interessados em compreender algumas das transformações que estão redefinindo o varejo, os meios de pagamento e a relação entre tecnologia e consumo.
Antes de embarcar, e acho que como muitas pessoas, eu associava a China principalmente à sua capacidade industrial, ao avanço tecnológico e à velocidade de inovação, mas voltei com uma visão e percepção ampliada.
O que mais me impressionou não foram os prédios, a infraestrutura ou a tecnologia; foi a clareza de direção que eu testemunhei durante os dias de aprendizado.
A China parece ter uma compreensão muito objetiva sobre onde quer chegar nas próximas décadas. Esse propósito se materializa em investimentos, educação, infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e planejamento econômico. Mais do que um conjunto de iniciativas isoladas, existe uma percepção de alinhamento entre diferentes atores da sociedade em torno de prioridades comuns.
Independentemente das diferenças culturais, políticas e sociais que distinguem a realidade chinesa da brasileira, existe uma lição importante para qualquer liderança empresarial: grandes transformações exigem horizonte de longo prazo. Mais do que tecnologia ou inteligência artificial, a principal lição da China está na capacidade de alinhar visão, estratégia e execução em torno de objetivos de longo prazo.
Durante a visita, ficou evidente que muitas das soluções que hoje impressionam o mundo não nasceram da noite para o dia. Elas são resultado de anos — e em alguns casos décadas — de construção contínua de capacidades, investimentos consistentes e aprimoramento permanente. Essa talvez seja uma das reflexões mais relevantes para o ambiente corporativo atual.
Vivemos em um período em que as organizações são pressionadas diariamente por metas trimestrais, indicadores mensais e desafios imediatos. Naturalmente, resultados de curto prazo são importantes. Mas existe um risco quando toda a energia da gestão é consumida pelas urgências do presente.
Ao viver dias intensos numa cultura e organização como a da China, fico com algumas inquietações instigantes para nossa realidade, como: quanto tempo dedicamos para discutir o futuro? Estamos construindo as competências que serão necessárias daqui a cinco ou dez anos ou formando as parcerias que sustentarão o crescimento dos próximos ciclos? Vamos investir em tecnologia apenas para resolver problemas atuais ou para criar vantagens competitivas duradouras?
No setor financeiro, por exemplo, observamos uma aceleração sem precedentes da digitalização, da inteligência artificial e da integração entre diferentes plataformas. No varejo, a experiência do consumidor se torna cada vez mais conectada, personalizada e instantânea.
Diante desse cenário, a capacidade de antecipar movimentos passa a ser tão importante quanto a capacidade de executar. A principal lição que trouxe da China é que o futuro não acontece por acaso. Ele é resultado de decisões tomadas diariamente, muitas vezes sem efeitos imediatos, mas que se acumulam ao longo do tempo.
É evidente que visão sem execução é apenas intenção. Mas execução sem visão também pode levar empresas a correrem muito sem necessariamente avançarem na direção certa. Talvez o maior diferencial das organizações que liderarão os próximos anos não esteja apenas na adoção de novas tecnologias, mas na capacidade de combinar clareza estratégica, disciplina operacional e uma visão que ultrapasse o próximo trimestre.
As grandes transformações não dependem apenas de velocidade. Elas nascem da clareza sobre o destino que se quer alcançar e da disciplina para construir esse caminho, dia após dia.
Ariane Bete, Diretora Comercial da DM, empresa de serviços financeiros que é referência em gestão de crédito para o varejo.
Ariane Bete, Diretora Comercial da DM, empresa de serviços financeiros que é referência em gestão de crédito para o varejo.