Por Renato Müller
Um levantamento realizado pela Progressive Grocer identificou as 10 redes de supermercados mais sustentáveis dos Estados Unidos e mostra que sustentabilidade no varejo mudou de patamar. Mais do que uma agenda institucional, focada em marketing e bem-estar, o tema se tornou uma estratégia de eficiência operacional, redução de custo e aumento de margens.
O estudo apresenta 10 varejistas que se destacam no tema, indo de gigantes como a Costco a varejistas de desconto como a Grocery Outlets e chegando a cooperativas de alcance local, como a PCC Community Markets. Em comum, elas compartilham quatro pilares estruturais.
O primeiro é o combate ao desperdício, com foco logístico e comercial. Redes como Grocery Outlet e Hy-Vee atacam o desperdício de alimentos como uma questão de eficiência operacional. A Grocery Outlet, por exemplo, baseia seu modelo de negócios na compra de estoques excedentes e itens fora de padrão da indústria, evitando o descarte de milhões de toneladas de alimentos por ano. Já a Hy-Vee usa automação e sistemas de controle de estoque para fazer demarcações de preços e evitar que os produtos estraguem nas gôndolas.
O segundo pilar é o da transição energética. O consumo de energia e o vazamento de gases refrigerantes são as maiores fontes de emissão escopo 1 e 2 do varejo alimentar. Para minimizar essa questão, os supermercadistas americanos têm investido em sistemas de refrigeração por CO2 ou fluidos naturais: a Grocery Outlet aumentou em 73% o número de lojas com refrigeração por CO2, enquanto a PCC Community Markets foca no monitoramento da detecção de vazamentos.
Ainda no tema do consumo de energia, a engenharia das lojas tem sido revisada pelas redes. As novas lojas da Hy-Vee, por exemplo, têm um melhor isolamento térmico, automação total da iluminação (acionada por sensores de luz natural), claraboias para otimizar a luz do dia e usinas solares próprias. A eletrificação das frotas de caminhões é outra prática importante, eliminando emissões de carbono e ruídos.
O terceiro pilar é o da governança da cadeia de suprimentos. O maior desafio ambiental do varejo está ligado às emissões indiretas da cadeia de fornecedores (escopo 3, formado pelas emissões de fornecedores e parceiros comerciais). As empresas estão usando seu poder de compra para ditar as regras: a Costco, por exemplo, implementou o programa STEP para cobrar e apoiar fornecedores na redução de suas pegadas de carbono e na eliminação do plástico de uso único nas marcas próprias da rede. A empresa também baniu de sua cadeia de hortifrutis o uso de defensivos agrícolas como o glifosato.
A Natural Grocers vai por outro caminho, financiando a transição agrícola de seus fornecedores. A varejista apoia programas de treinamento para fazendeiros, com foco na saúde do solo e na biodiversidade. O rastreamento completo da cadeia de suprimentos, como é feito pela Hy-Vee em parceria com a ONG FishWise para publicar o nome de cada embarcação que fornece atum para sua marca própria, é uma medida que busca gerar confiança e transparência.
O quarto e último pilar é o da integração da agenda social. As empresas que mais se destacam em sustentabilidade no varejo americano não separam o impacto ambiental do impacto social e comunitário. A Natural Grocers investe milhões de dólares em serviços de educação nutricional e treinamentos de saúde dentro das lojas, enquanto a PCC Community Markets apoia pequenos produtores regionais e cria fundos de sementes para cooperativas de combate à fome.
Os 10 varejistas da lista da Progressive Grocer (Costco, Grocery Outlet, Hy-Vee, Natural Grocers, PCC Community Markets, Publix, Schnucks Markets, Sprouts Farmers Market, Walmart e Whole Foods Market) mostram que a sustentabilidade tem deixado de ser vista como uma área isolada nas empresas.
Em vez disso, essas supermercadistas têm transformado as métricas ESG em parte de seus KPIs de eficiência operacional. Afinal, reduzir resíduos, gastar menos energia, otimizar embalagens e blindar a cadeia de suprimentos contra riscos climáticos se tornaram caminhos de geração de rentabilidade.