Com base no comportamento dos hábitos de consumo observados em 2025, a partir da forma como os brasileiros utilizam cartões de crédito, é possível antever oportunidades para o ano atual. Essas informações ajudam a ler com antecedência o desempenho das sazonalidades que compõem o calendário do varejo, a segmentação (perfil, canal e produto) e a execução orientada a valor — com atenção simultânea à recorrência e às janelas de compras de maior valor agregado.
Como foi o comportamento do consumidor em 2025?
O ano de 2025 foi marcado por uma combinação de sustentação do consumo corrente — apoiada por emprego e renda — com seletividade e maior disciplina na alocação dos gastos. O cenário mostrou um consumidor mais atento a preço, conveniência e proposta de valor.
Assim, a evidência mais útil para orientar 2026 é que “crescimento” nem sempre significa, necessariamente, aumento no valor da compra. É muito provável que uma parcela relevante da expansão observada em 2025 esteja mais associada ao aumento de frequência e à reorganização do mix (o que comprar, quando comprar e por qual canal) do que a um avanço sustentado de gasto médio por transação.
Isso ajuda a explicar por que alguns segmentos conseguiram avançar mesmo em um ambiente de maior sensibilidade a preços (inflação), no qual promoções, substituição de marcas ou itens e escolhas mais racionalizadas ganham importância no contexto específico de elevado endividamento das famílias.
O impacto do digital e das formas de pagamento no varejo
As aberturas por perfil sugerem que o meio digital se consolidou como um vetor transversal — não apenas em janelas promocionais —, ampliando a conveniência, a pesquisa e a recorrência. Por outro lado, o formato presencial preserva sua relevância em rotinas e categorias específicas.
Em paralelo, a segmentação por produto indica um padrão consistente com a prática tradicional do varejo:
- Pagamento à vista: tende a concentrar o volume e as compras mais pulverizadas.
- Pagamento parcelado: costuma ficar mais associado às decisões de maior valor e maior planejamento (quando a percepção de benefício compensa o custo financeiro e o orçamento disponível).
A dinâmica operacional e os microcalendários setoriais
Na ótica setorial, o balanço de 2025 reforça que a dinâmica do consumo é heterogênea e altamente dependente de “microcalendários” por categoria:
- Segmentos de conveniência, recorrência e mobilidade cotidiana: tendem a responder mais a frequência, a disponibilidade e o atrito reduzido (como agilidade no check-out, entrega/retirada e jornada de compra).
- Categorias de compra rara e valor elevado: dependem mais de confiança, comparação, promoções bem calibradas e condições de pagamento. Portanto, costumam ser mais sensíveis ao ciclo de crédito e à percepção de risco por parte do consumidor no contexto macro vigente.
O que esperar para o mercado de consumo em 2026?
Para 2026, o cenário-base mais provável ainda combina crescimento moderado e condições financeiras relativamente restritivas. Essa conjuntura deve manter o consumidor seletivo e orientado a valor — mesmo que haja espaço para fases de alívio ao longo do ano, a depender da trajetória da inflação, dos juros e da confiança.
Por isso, o uso mais produtivo das leituras de 2025 é rata-las como um “mapa de decisão”:
- Nas categorias em que o consumo mostrou robustez e consistência, faz sentido acelerar.
- Nas áreas em que houve perda de tração, faz sentido testar alavancas (mix, canal, preço/promoção, financiamento) e monitorar sinais emergentes de inflexão.
Em síntese, a leitura integrada de 2025 reforça que as oportunidades em 2026 tendem a ser mais bem capturadas por estratégias que combinem sensibilidade ao calendário do varejo, segmentação (perfil, canal e produto) e execução orientada a valor.
Insights estratégicos
Com base nos diversos achados pelo estudo “Hábitos de Consumo 2025”, produzido pela Elo Performance & Insights (unidade de consultoria estratégica da empresa), destacam-se os seguintes insights para capturar oportunidades em 2026:
1. Planejar sazonalidades como uma sequência de janelas (e não como uma média anual): as datas e os marcos sazonais funcionam como “testes” recorrentes do orçamento. Campanhas e sortimento ganham eficiência quando desenhados por timing (antecipação, pico e pós-evento), e não apenas por trimestre.
2. Tratar crescimento como frequência, mix e conveniência: em muitos casos, o ganho vem de reduzir atrito, aumentar recorrência e ajustar a cesta (bundles, tamanhos, versões), mais do que de tentar sustentar valores mais elevados de gasto com cartões de forma contínua.
3. Aprofundar a segmentação por canal, renda e produto: as melhores respostas comerciais surgem da combinação entre proposta de valor (preço e benefício), jornada (digital/presencial) e forma de pagamento (à vista/parcelado), com mensagens e condições por público e por categoria.
4. Reforçar preço, promoções e arquitetura de valor: em um ambiente de consumidores mais intencionais, promoções precisam ser críveis, simples e comparáveis. Iniciativas como marcas próprias, kits e descontos condicionais tendem a dialogar melhor com a busca por custo-benefício.
5. Acelerar a agenda de dados, personalização e automação: há ganho competitivo para quem usa dados transacionais para segmentar, personalizar ofertas e reduzir o desperdício promocional — inclusive com apoio crescente de inteligência artificial (IA) na jornada do consumo (recomendação, atendimento, prevenção de ruptura e precificação).
6. Explorar retail media e ecossistemas de fidelidade como alavancas: estratégias que combinam audiência, mensuração e conversão ganham relevância, sobretudo em categorias de compra recorrente, reforçando a importância da ativação omnicanal e de programas de relacionamento.
7. Monitorar sinais de inflexão ao longo de 2026: a tier list e os recortes por perfil funcionam melhor como instrumento de acompanhamento (consistência vs. volatilidade) do que como previsão determinística. Mudanças de mix, canal e calendário podem deslocar rapidamente a liderança entre segmentos, exigindo leituras contínuas e ajustes táticos ao longo do ano.